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#2 cinema delas: MARY DORE

#2 cinema delas: MARY DORE

Sobre a coluna ‘Cinema delas’
Toda quarta-feira tem conversa com uma cineasta aqui no site e ainda tem vídeo com recomendações dos melhores e piores filmes de cada uma delas. Pra acompanhar, é só dar like, se inscrever e etc no canal e na página do VP.

Diretora, roteirista e produtora, a entrevista da semana é com a norte-americana Mary Dore. É dela o documentário ‘She’s Beautiful When She’s Angry’, que fala sobre as raízes do feminismo nos Estados Unidos. E, sim, ele está disponível na Netflix… Se você quiser conhecer mais sobre o trabalho dela, assista ao vídeo e leia a conversa:

Documentário, cinema e televisão. Como mulher, qual a diferença em trabalhar nessas áreas?

Existe uma grande diferença entre as três, em termos de trabalhos feitos por mulheres. No caso dos documentários independentes, a arrecadação de fundos é miserável, assim como fazer com que esse filme seja visto. Entretanto, agora existe uma boa porcentagem de documentaristas mulheres nos Estados Unidos e no mundo… Eu comecei minha carreira quando resolvi participar de um coletivo de cinema, e aí consegui meu primeiro “trabalho pago de verdade” na área de documentários para televisão, isso em uma época que era muito raro ver uma mulher ser empregada como produtora. Os obstáculos na TV são diferentes, não é preciso juntar dinheiro (geralmente) – porque você recebe um salário – mas você também não tem total controle sobre o conteúdo, tudo depende do local de trabalho e da sua experiência. Fiz TV por décadas e, na maioria das vezes, não me senti presa em relação ao que eu queria dizer, mas esse é o meu ponto de vista. Já Hollywood é o oposto nos Estados Unidos, porque as mulheres têm muita dificuldade para serem contratadas, especialmente as diretoras. Enquanto isso, jovens homens inexperientes conseguem dirigir grandes filmes… Existe um ótimo site chamado Women in Hollywood que traz estatísticas sobre mulheres que fazem cinema (da última vez que olhei, as diretoras estavam com 7%, isso é patético). E, como você provavelmente notou, o governo dos EUA está fazendo o melhor para proibir não apenas o aborto, mas o controle de natalidade – o que é totalmente horrível, pois está fazendo com que as mulheres sejam demitidas de maneira muito mais fácil e rápida, então, todas as áreas tendem a piorar, inclusive, essa. Mas, é claro, eu preciso falar que, principalmente na Europa, as filmmakers tiveram e têm sucesso mais cedo. E é importante lembrar que no início de Hollywood (época do cinema mudo), a maioria dos primeiros cineastas, na verdade, eram mulheres, roteiristas, diretoras e produtoras – mas poucas conseguiram manter o status.

‘She’s beautiful when she’s angry’ é um trabalho incrível, que oferece uma reflexão mundial sobre os direitos das mulheres. Esse foi seu maior ato feminista?

Acho que virar feminista foi e é meu maior ato feminista, porque não foi fácil pra mim no início da década de 1970. Foi como pular de um penhasco e começar a olhar o mundo de outra maneira, eram muitos ideais que nos foram admitidos. No entanto, eu cresci em um matriarcado, no qual minha avó controlava tudo e trabalhava sem parar, então o assunto “mulheres deveriam trabalhar?” nunca foi questionado, já que eu pertencia a uma classe trabalhadora. Mas falando de ‘She’s beautiful when she’s angry’, sim, tenho muito orgulho dele. Eu queria mostrar a amplitude do início do movimento feminista nos Estados Unidos, como ele foi insultado e denegrido em meu país por décadas. E isso, realmente, fez com que a arrecadação de fundos se tornasse um pesadelo. Mas nós ficamos muito emocionadas com o impacto que ele gerou, principalmente porque a Netflix traduziu para 22 línguas. Eu recebo cartas de todos os lugares do mundo falando sobre o filme (só na semana passada, recebi correspondências da Índia, Camboja e Alemanha).

Falando em alcance mundial, nos minutos finais do documentário, você pontua sobre uma união internacional das mulheres. Você acha que evoluímos nessa missão?

Penso que existe um desespero mundial por mais igualdade e direitos para as mulheres, mas que depende muito do país e da cultura. No ano passado, fui selecionada para exibir o documentário em Mumbai e Botswana, pelo ‘American Film Showcase’, e foi tão interessante conversar com mulheres que estão lutando pelas próprias batalhas, mesmo com limitações muito diferentes. Então, as coisas estão melhores? Em alguns países, como a Suíça, sim, porque eles trabalharam pela igualdade e é um país menor e mais rico. Em países mais pobres, há um crescimento de coletivos voltados para o trabalho feminino, alguns avanços na educação e corridas para cargos políticos, mas que ainda têm um bom caminho pela frente.

Imagens do documentário ‘She’s Beautiful When She’s Angry’. Foto: Reprodução

Do planejamento à conclusão de ‘She’s beautiful when she’s angry’, você mudou de ideia sobre alguma coisa?

À medida que o projeto prosseguiu, eu certamente aumentei o escopo do filme, já que sempre achei essencial mostrar que os estereótipos não eram merecidos. No início de 1990, quando comecei a pesquisa sobre o documentário, os estereótipos eram “feminismo = ódio aos homens”, amargura, mulheres feias, ódio às crianças, falta de senso de humor… E a direita inventou o amável termo “feminazi”, que foi e é muito usado. Originalmente, eu estava interessada sobre o Movimento de Libertação das Mulheres (meu background), não na fundação da Organização Nacional de Mulheres (NOW), formada em sua maioria por mulheres profissionais. E ao pesquisar mais, eu percebi que elas estavam mais engajadas do que a maioria pensava, e que a NOW tinha visões muito progressistas sobre aborto, divórcio, salários, então, precisei incluir essa história. E, claro, tive que mostrar também os erros dessa vertente, como quando elas estavam com medo de que as lésbicas fossem prejudicar o movimento.

Você teve algum obstáculo na realização dessa pesquisa, para coletar essa quantidade de fontes e materiais sobre as mulheres?

Primeiramente, eu tive a enorme vantagem de conseguir muitos livros sobre a história do Movimento de Libertação das Mulheres – todos os títulos podem ser vistos em nosso website. Então, devo um grande favor a esses historiadores. Há também excelentes arquivos nos colégios feministas daqui, a maioria tinha fotos e cartazes que usamos muito. Grande parte das minhas pesquisas para o documentário foram feitas nas principais redes comerciais de TV, nas quais o acesso às vezes é limitado. Já fiz dezenas de filmes e programas sobre fatos históricos, sou uma nerd dos arquivos, então adorei passar dias e dias olhando tudo isso. E eu acabei encontrando materiais que não tinham sido vistos, ou foram mal usados, por mais de quatro décadas. No entanto, não eram materiais gratuitos e, para isso, foi preciso pagar muito por cópias e por minutos usados no filme (como $350 por minuto de filmagem).

Existe alguma coisa que as mulheres não deveriam tentar atrás ou em frente às câmeras?

Fazer filmes é difícil, é um trabalho árduo. Muitas pessoas pedem conselhos e eu imediatamente descarto aquelas que já perguntam “quantas horas você trabalha?” ou, minha favorita, “quanto dinheiro você consegue?” No meu campo, essa é a pior impressão que alguém pode dar. Eu vejo o cinema como aventura, ativismo, como uma maneira privilegiada de olhar para dentro de várias vidas. A única assistente que demiti foi uma jovem, que já tinha experiência, mas que frequentemente insultava o editor, além de ter outras atitudes terríveis. Essa não é uma carreira para bebês. No cinema, a curiosidade e a ética de trabalhos precisam ser profundas.

Imagens do documentário ‘She’s Beautiful When She’s Angry’. Foto: Reprodução

Eu também gostaria da sua opinião sobre os seguintes assuntos: 

Estupro dirigido por homens. Algumas mulheres acham que é necessário mostrar o horror, independentemente de ser um homem ou mulher dirigindo. Outras, consideram inaceitável, já que um homem nunca entenderia essa situação ou a violência contra mulher. Você concorda com alguma dessas opiniões ou tem um ponto de vista diferente?

Talvez essa não seja uma resposta muito inteligente, já que não gosto de filmes violentos no geral. Há muita violência no mundo, então, eu não proíbo nenhum diretor de retratar isso, contanto que não seja só para excitar a audiência. Alguns filmes que ficaram permanentemente na minha cabeça tinham cenas de estupro. Vi ‘La ciociara’, dirigido por Vittorio DeSica, na TV quando era muito jovem e não foi um filme explorador, mais sim devastador. E no brilhante ‘Boys Don’t Cry’, dirigido por Kimberly Peirce, sobre uma jovem transgênero, não aguentei e saí por alguns minutos na cena de estupro. Eu acho que a diretora fez um ótimo trabalho, só foi muito difícil ficar sentada durante cada segundo. É importante mostrar a feiura, a guerra, o estupro e todas as coisas horríveis que fazem parte da raça humana. Mas não compro a ideia quando há intenção de ser uma piada ou quando a violência é usada apenas para “animar” a audiência.

Há uns anos, era raro ver mulheres mais velhas receberem bons papéis no cinema e na TV. Elas tinham participações limitadas e eram representadas, praticamente, como mortas. Você acha que melhoramos nesse ponto?

Geralmente, as atrizes no cinema e na TV são ignoradas pela idade. Por outro lado, você sabe, homens de 60 anos estão sempre bem, namorando mulheres na casa dos 20 anos… Mas, ultimamente, há muitas atrizes mais velhas conseguindo ótimas personagens, não só Meryl Streep e Catherine Deneuve, que são maravilhosas. Algumas das minhas favoritas estão entre o cinema e a TV, como Lily Tomlin, Margo Martindale e Annette Benning. Mesmo assim, à medida que você envelhece, ser gravada é uma agonia.

Por fim, você poderia recomendar alguns filmes dirigidos por mulheres?

Claro! Vou deixar um asterisco em duas ótimas diretoras norte-americanas que, infelizmente, não tiveram uma grande segunda chance no cinema.

Dramas: ‘Mustang’ (2015), feito pela Deniz Gamze Ergüven. ‘My Brilliant Career’ (1979), Gillian Armstrong. ‘Boys Don’t Cry’ (1999), Kimberly Pierce*. ‘The Piano’ (1993), Jane Campion, que também produziu a série ‘Top of the Lake’. ‘Winter’s Bone’ (2010), Debra Granik*. ‘Mississippi Marsala’ (1991), Mira Nair. ‘Obvious Child’ (2014), Gillian Robespierre.

Comédia/Filmes comerciais: ‘The Decline os Western Civilization’, ‘The Little Rascals’ e ‘Wayne’s World’, da Penelope Spheeris. ‘Desperately Seeking Susan’ (1985), Susan Seidelman. ‘Clueless’ (1995), Amy Heckerling.

Documentários: ‘13th’ (2016), Ava DuVernay. ‘Paris is burning’ (1990), Jennie Livingston.

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