Close
#5 cinema delas: SARAH ADINA SMITH

#5 cinema delas: SARAH ADINA SMITH

No final de 2017, entrevistei a Sarah Adina Smith pra coluna, mas a temporada de premiações já estava na esquina de casa e, por isso, resolvi segurar esse bate-papo pra um momento mais calmo, se é que posso chamar assim.

Buster’s Mal Heart está disponível na Netflix e tem Rami Malek (Mr. Robot) como protagonista. The Midnight Swim está disponível pra baixar. Esses dois filmes foram escritos e dirigidos por Sarah, que também possui um curta em Holidays (no caso, o dia das mães). Ela trabalha com simbologia, suspense e terror. Eu recomendo os três.

E, claro, recomendo também que você leia a entrevista.

U: The Midnight Swim (2014) foi um dos melhores filmes que vi em 2017. Como surgiu a ideia de retratar o relacionamento de três filhas com a morte da mãe e ainda incluir um lago misterioso na história? 
S: Muitas culturas têm lendas sobre jovens que viraram estrelas e outras coisas. Minha mãe costumava contar a história das sete irmãs que se afogaram no lago tentando salvar umas às outras. E eu pensei que essa seria uma metáfora interessante sobre o luto… Porque fala sobre não ser capaz de deixar quem você ama. Na época em que fiz a pesquisa para o filme, descobri os mitos que envolviam a constelação das Plêiades, o estranho era que a maioria mencionava sete irmãs, mas só seis estrelas são possíveis de ver a olho nu… Então, eu pensava, quem é a sétima? Aparentemente, o nosso coração sabe que ela está lá. Mas onde ela está nos levando?

U: O filme é muito íntimo e traz alguns traços de documentário. Por que tomar esse caminho? 
S: Eu particularmente não tinha interesse em fazer um filme no estilo found footage, mas queria filmar o ponto de vista de uma das personagens em primeira pessoa, como se estivéssemos na cabeça de June. Eu queria uma câmera subjetiva e empática. June é praticamente invisível durante o filme, mas nós a entendemos intimamente por causa dessa técnica.

U: Agora, falando sobre a indústria cinematográfica. Mesmo daqui do Brasil, dá pra ter uma ideia da diferença de oportunidades das mulheres para os homens no cinema norte-americano. Você concorda?
S: Nós definitivamente temos um problema de diversidade em Hollywood e isso começa com o acesso aos recursos. Na maioria de reuniões que faço com os financistas, há poucas pessoas de outras etnias e raças. Se houver mulheres na sala, elas geralmente são brancas. E quando eu encontro negros e mulheres, a maioria das decisões precisam ser aprovadas por homens brancos. Até que o lado comercial da equação mude, eu não acho que os números do lado criativo vão mudar. Não porque as pessoas não estão tentando ou até porque são explicitamente preconceituosas, mas porque nos sentimos mais confortáveis trabalhando com pessoas que lembrem a nós mesmos. Tendemos a nos sentir melhor ao assumir riscos com pessoas e histórias em que nos vemos. Mas existem pessoas de todas as cores e gêneros fazendo o que podem pra reverter essa ideia de “human nature”. A mudança está acontecendo, mas devagar. Se quisermos que isso aconteça rápido, as pessoas que controlam o dinheiro precisam ser de todas as cores da América.

U: E você também trabalha com filmes de terror. Como é ser mulher nesse gênero?
S: Eu acho que é mais fácil. A comunidade do terror é incrivelmente acolhedora. Além disso, os financistas entendem que o modelo desse gênero necessita de pouco orçamento e é menos arriscado. Por isso, é mais fácil convence-los a se arriscarem com você.

U: É um gênero difícil de “reinventar”?
S: Eu tento não olhar para o processo criativo dessa maneira. Apenas tento contar uma história da maneira que ela quer ser contada.

U: Falando em terror, você é a única mulher a dirigir um curta em Holiday (2016), no qual você escreveu e dirigiu a história sobre o Dia das Mães. Por que essa data foi escolhida?
S: Sim, eu era a fêmea simbólica naquela lousa. E tenho certeza que um dos produtores teve que lutar para que eu fizesse parte do filme. Originalmente, pedi para dirigir o Dia de Ação de Graças, mas eles queriam segurar aquele feriado para um diretor mais importante. Então, acabei dizendo que poderia fazer o de Yom Kippur ou Dia das Mães, o qual eles acabaram liberando para mim. Eu fiquei feliz com o resultado e por fazer parte desse projeto. Foi a primeira vez na minha vida que alguém se aproximou de mim e se ofereceu para dar um pouco de dinheiro para fazer um filme. Então, claro, eu disse sim. E eu resolvi examinar o horror da maternidade em si, o ato de ser a embarcação e de como a vida nova vem ao mundo… Por perder o controle do seu corpo. Na história da humanidade, as mulheres tiveram pouco ou nenhum controle sobre quando ou como ficaram grávidas. Em várias culturas foram e ainda são tratadas como propriedade, sendo estupradas por seus maridos, sentenciadas a uma vida de gravidez perpétua, assistindo a morte de seus filhos por causa de doenças e até que finalmente, misericordiosamente, elas morreram sangrando em um trabalho de parto. Eu queria fazer um filme sobre o medo primordial da maternidade para nos lembrar de um passado não tão distante. Toda mulher tem o direito de escolher se quer ou não ser mãe.

U: Há uma cena de estupro nessa história. Quando essa situação deve ser explícita? 
S: Eu acho que precisamos conversar sobre o estupro nos filmes. Estou menos preocupada como a forma em como ele é retratado do que com a razão pela qual escolhemos retrata-lo. Frequentemente, estupro e agressão sexual são usados como substitutos para profundidade e plano de fundo das histórias. Muitos escritores “aderem” o estupro como uma mão curta para nos fazer sentir por seus personagens. Como cineastas, precisamos ter certeza de que cada escolha tenha um propósito genuíno e profundo. No segmento do Dia das Mães, há uma alucinação de um ritual de estupro, o qual eu desenvolvi ao estar estudar sobre um mito do renascimento de Montezuma II. Eu tento infundir minhas histórias com muitas camadas, mais do que nunca deixo explícito para o público.

U: Existe uma constante discussão sobre estupros serem filmados por homens. Qual sua opinião?
S: Estupros acontecem com mulheres e homens. É importante abordar isso no filme quando a história pede. Não acho que nenhum diretor – homem ou mulher – deve ser banido de retratar alguma coisa. Mas para fazer um filme é necessário ter grande responsabilidade. Ninguém deve levar isso “na boa”. Muitos diretores homens não confiam em suas atrizes e, então, fazem com que elas se sintam violadas no set, porque acham que isso é o que dará melhores imagens. Isso nunca estará certo. Isso é abuso. Eu li um livro sobre as gravações de Thelma & Louise, no qual Ridley Scott queria refazer a cena de estupro, para que fosse mais violento e perturbador, para alimentar o resto da história. Como uma storyteller, eu entendo isso. E pode ser que ele estivesse certo. No entanto, ele não confiou em sua atriz, Geena Davis, para dizer do que ele precisava dela e o porquê da cena ser regravada. Ao invés disso, ele inventou alguma desculpa técnica e disse para o ator “go for it” com uma piscada. E Geena deixou o set se sentindo violada. Isso é fodido e errado. As atrizes são artesãs, você deve inclui-las no processo de contar a história, assim elas serão suas aliadas. E se você acha que a atriz não é capaz de desempenhar o papel que você deseja sem engana-la, a culpa é sua por escolher a pessoa errada. Ninguém deve ser manipulado assim.

U: Em Buster’s Mal Heart (2016) você tem um protagonista homem. Há alguma diferença nisso?
S: Não, sou apenas um ser humano fazendo histórias sobre outros seres humanos. É assim que eu vejo.

U: A equipe desse filme tem em sua maioria mulheres. Foi intencional? 
S: Isso aconteceu naturalmente. Tento achar a melhor pessoa para o trabalho e isso faz com que eu consiga uma equipe bem diversificada. Mas acho importante que você, ao olhar pela sala e perceber que todos são iguais, faça um esforço deliberado para mudar isso.

U: Por fim, quais filmes dirigidos por mulheres você recomenda?
S: Precisamos falar sobre Kevin; 13ª emenda; Inverno da Alma; Tu Estavas Leve e Graciosa; A Teacher (2013); Brilho Eterno; Branquinha; Persépolis; Docinho da América; Encantadora de Baleias; O Babadook.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Close