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Alma cigana: O coração de uma mãe de santo

Alma cigana: O coração de uma mãe de santo

“Eu sempre quis ser eu mesma, e encontrei na religião um pedaço de mim. É importante ter amor ao próximo e não desejar mal a ninguém”

“Quando eu era criança/ Minha mãe cantava pra mim/ Uma canção em yorubá/ Cantava pra eu dormir/ Uma canção muito linda/ Que o seu pai te ensinou/ Trazida da escravidão/ E cantada por seu avô/ …Essa canção muito antiga/ Do tempo da escravidão/ Os negros em sofrimento/ Cantavam e alegravam o seu coração/ Presos naquelas senzalas/ Dançando ijexá/ Aquela canção muito linda/ Com os versos em yorubá/ Era assim…” – Canto Para Oxum (Oro Mi Maió)

No ritmo dos atabaques

Dirce Aparecida ou simplesmente, Mãe Dirce de Iansã estava vestida de branco, com um torço cobrindo os cabelos negros e as guias coloridas no pescoço. Com os pés descalços e passos devagar, a mãe de santo de setenta anos dançava a gira de Umbanda com os filhos de santo ao som de atabaque, chamando a linha da esquerda para terminar os trabalhos daquela noite. Logo, o barulho dos tambores se misturou com o cheiro das bebidas baratas, fumaça de tabacos e um doce aroma no ar, dos incensos e velas acesas. Os gritos, gargalhadas altas e as roupas coloridas que foram tomando conta do espaço, anunciavam que os exus e as pombas-gira haviam chegado na casa.

A senhora, que antes dava passos lentos e com calma, agora desbravava sensualidade em frente aos Ogãs que tocavam os atabaques. Sua entidade, dançava e cantava o seu ponto, conquistando suspiros de qualquer um que a observava. A mãe de santo foi levada a um pequeno quarto do outro lado do terreiro para trocar de roupa. No caminho de volta, os anéis e pulseiras brilhavam no reflexo da luz. Seu vestido de cetim vermelho com detalhes preto e dourado arrastava no chão, balançando e rodando ao ritmo dos tambores, anunciando que – Maria Padilha, Rainha das Sete Encruzilhada – estava na casa.

“Em um lugar distante, numa rua bem deserta/Tinha um cemitério antigo, e uma catacumba aberta/ Dentro da cova tinha pano de caixão/ Tinha osso de defunto cravejando um coração/… Raspa de vela, sete novelos de linha, tinha cadeado velho e tinha sangue de galinha / Dentro da cova, tinha um vulto ajoelhado / … Era eu Maria Padilha trabalhando para o diabo/… Vem serrar…madeira, vem serrar madeira. /Vem serrar madeira, Maria Padilha não é brincadeira …” – Ponto de Maria Padilha, Rainha das Sete Encruzilhas (Catatumba aberta)

Os filhos de santo correram para atender Maria Padilha, oferecendo bebida e cigarro. ”A Senhora quer beber? Vou buscar uma taça de Martini e um cigarro” “Hoje não vou embora tão cedo” respondeu a entidade, arrancando risadas das pessoas que observavam. Deixando todos animados e ansiosos, visto que muitos queriam falar de seus problemas e resolver as suas causas com Padilha. Com um Português enrolado, a Pomba-gira dava conselhos e soltava palavrões.

No encerramento dos trabalhos daquela noite, quase todas as entidades haviam indo embora, menos Maria Padilha. Como havia prometido a hora que chegou, ela foi a última a deixar a casa. Na volta, nos deparamos com a Mãe Dirce de Iansã, a senhora de setenta anos estava mais disposta do que muitos jovens, (“Não me canso, são cinquenta e três anos trabalhando com ela [Maria Padilha], já estou acostumada com a rotina!”).

Os ponteiros do relógio marcavam meia-noite. Os filhos de santo se despediam da casa, todos já estavam cansados. Dirce, estava sentada em uma cadeira de palha, coberta por um pano branco que ficava debaixo de um altar com imagens de Oxalá e Iemanjá. A senhora pediu para me aproximar e fez um pedido para conversar no outro dia.” Eu faço questão que esteja aqui na casa bem cedinho. Aqui começamos cedo os trabalhos e só terminamos assim, tarde de noite”, falou a senhora, que embora não demonstrasse cansaço, podíamos ver em seu olhar a vontade de dormir.

Tenda de Umbanda: Caboclo Sete Flechas, Rei de Mata

“A mata estava serena/ Iluminada pelo sol de Aruanda/ Chegou seu Sete flechas/ Para trabalhar na Umbanda/ Trazendo seu bodoque na mão/ O seu penacho é reluzente/ Ele vem cortar demandas/ E ajudar a nossa gente.. / Kiô, kiô/ Saravá seu Sete flechas/ Kiô, kiô../ Ele é o rei da floresta…” Ponto de abertura (Caboclo Sete Flechas, Rei de Mata)

O sol ainda permanecia escondido entre as nuvens. O relógio apontava oito horas da manhã de sábado. Fazia calor, mas a previsão do tempo marcava chuva para o período da tarde. A Mãe de Santo já está acordada desde às seis horas realizando os afazeres da casa. A correria tomava conta do ambiente. Os filhos ajudavam nos preparativos das comidas para os santos e na limpeza no barracão. O cheiro de canjica, acarajé e temperos despertava uma sensação única. Naquela manhã um cliente da casa, iria realizar um Ébo [Limpeza espiritual] – realizado para melhorar a saúde, trabalho, questões financeiras e espirituais -.

Vestida com uma saia longa branca, um torço azul claro cobrindo os cabelos e uma guia amarela do pescoço. A filha de Santo Márcia de Oxum, abriu o portão e me atendeu com um sorriso:

– Bom dia, a Mãe está te esperando no final do corredor, na sala de consulta da cigana, onde lê cartas, vou mostrar o caminho!

Caminhei por um corredor estreito e cheio de quadros, havia fotos de festas e saídas de santo dos filhos. Várias portas também compunham o caminho, alguns com letreiros, “Roupas”, “Quarto de santo”… Na última, Dirce me esperava com um sorriso no rosto. “Venha minha filha, vamos conversar aqui. É mais sossegado e não tem tanto barulho”, comentou apontando para que eu me sentasse na poltrona junto à mesa de tarô, debaixo de um altar de Santa Sara Kali.

A sala cheirava a mirra. Era um pouco escura e a única iluminação, que tomava conta do ambiente era de velas de diferentes cores e tamanho e um abajur, que ficava no fundo do local. A mesa ficava no canto esquerdo, sobre um tapete vermelho, perto de um altar e de um vaso de flores. As imagens de ciganas e de duas santas, chamavam atenção dentro do ambiente. A mãe de Santo sentou à minha frente, tentando arrumar um espaço entre os diferentes tipos de tarô, perfumes, velas e incensos, para colocar o álbum de fotos que estava na sua mão.

“Eu comecei na Umbanda, aos sete anos de idade como cambono, acompanhando mulher que me criou, quando precisavam ir a mata, cachoeira, cemitério e encruzilhadas para fazer oferendas. Ela frequentava diariamente um “congá” que ficava perto da nossa casa” comentou, com um tom triste na voz. “Como eu sempre fui teimosa e a minha mediunidade foi avançada sempre se manifestando de uma forma muito forte. Um bom exemplo disso, é quando eu frequentava algum velório o espírito terminada me perseguindo.”, terminou mostrando a foto da casa, na qual permaneceu até os dez anos ao lado de oito crianças.

Ao completar dez anos de idade, a mãe materna de Dirce foi buscá-la, levando a menina para morar consigo. Quando completou doze anos, sua mãe a colocou para estudar em um colégio católico interno. Essa foi a forma que encontrou para tentar afastá-la da religião. Cinco anos depois, aos dezessete anos, a jovem foi passar um tempo em casa, “Quando já estava mais velha, eles me mandaram para casa, chegou a hora de confirmar se seguiria dedicando o meu tempo a Deus e se faria o voto para se tornar freira, mas a minha mãe já tinha planos para mim.”

A jovem já estava noiva sem saber, sua mãe arrumou um casamento para a ela, com o filho de uma vizinha. O rapaz era treze anos mais velho que Dirce. Aos 18 anos, a mãe de santo se casou, mas seu marido nunca interferiu nas escolhas que fez. “Estou casada até hoje, e já completamos bodas de ouro juntos, o Manoel não impediu as minhas escolhas. Ele me apoiou e até ajudou no terreiro”.Do casamento, Dirce teve três filhos, mas apenas o mais velho segue a religião.

Enquanto a mãe de Santo, mostrava as fotos de sua família, uma batida na porta invade a sala e um dos filhos da casa pedem licença para entrar:

– Com licença minha Mãe, podemos conversar? – Perguntou o rapaz

Dirce, levantou, buscou um prato raso e uma vela de sete dias branca, entregou ao rapaz e pediu para que ele acendesse ao seu anjo da guarda e fizesse um pedido, que tudo o que ele estava passando iria melhorar.

Em 1980, quando fundou a “Tenda de Umbanda, Caboclo Sete Flechas Rei de Mata” (nome que deu em homenagem a primeira entidade que recebeu, quando tinha sete anos de idade), a mãe de santo, nunca imaginou que seria obrigada a trocar de matriz na religião. Quase vinte anos de casa, começou a enfrentar problemas com a sua mediunidade.”Quando eu incorporava, tinha dificuldades de voltar. Então, decidi que já era a hora de procurar um Pai de Santo e realizar a minha fundação no Candomblé”, lembrou Dirce da decisão que precisou tomar para realizar uma feitura de santo.

”A primeira vez que recebi uma entidade, foi no “congá” que a mulher que cuidava de mim, frequentava. Eu tinha apenas sete anos de idade e isso me marcou muito. Era o Caboclo Sete Flechas, por isso o nome do meu terreiro. Com a mesma idade também recebi a minha protetora, Maria Padilha e que cuida de mim até hoje”, Contou a mãe de santo.

Após contar detalhes que sofreu muita na vida para criar os filhos, a mãe de santo ainda relembrou de momentos que sofreu e ainda sofre por causa de Religião.

Preconceito enraizado: Um caminho longo e doloroso

“Refletiu a Luz Divina/ Com todo seu esplendor/ É do reino de Oxalá / Onde há paz e amor/ Luz que refletiu na terra/ Luz que refletiu no mar/ Luz que veio de Aruanda/ Para tudo iluminar..” – José Manuel (Hino de Umbanda)

Todos os dias que precisa ir ao centro de cidade para resolver alguma coisa, ou comprar materiais para realizar os trabalhos dos clientes, ela sofre olhares e muitas vezes ouve comentários maldosos.

Caminhando pela rua, com sua roupa branca e torço cobrindo os cabelos, os olhares maldosos a perseguem em cada passo. Um rapaz arrisca um comentário. “Você aceita ouvir a palavra de Deus? Essa não vai te levar a nada”, outra faz o sinal de santa cruz e fala que a mãe de santo deveria ter vergonha de andar daquela forma” Vai para o inferno”, “Situações como essa são as que presencio sempre que saio de casa. É triste saber que as pessoas não respeitam a religião do próximo. As pessoas acham que não podemos estar no meio delas, só porque a minha religião não é a mesma que a dela.” comenta a mãe de Santo.

Mas diante de situações como essa, Dirce já não se importa mais, para ela o importante é não se importar com o que os outros pensam. “Eu sempre quis ser eu mesma, e encontrei na religião um pedaço de mim. É importante ter amor ao próximo e não desejar mal a ninguém.”

Entenda os termos

Candomblé e Umbanda – São duas religiões de Matriz africanas, uma é diferente de outra. O Candomblé é uma religião panteísta, ou seja é aquela que acredita em um único Deus, mas também acreditam que existem vários outros deuses de elementos da natureza. Já a Umbanda, foi criada no Brasil e é uma junção de outros movimentos religiosos. Ambas foram trazidas pelos escravos e cultuadas durante a colonização do Brasil.

Dofona: É o termo utilizado para o filho de santo a conduzir o “barco” na feitura de santo. É designado aquele que carrega o santo mais velho na cabeça.

Entidade: Espírito

Maria Padilha, Rainha das Sete Encruzilhadas: Pomba-gira mais velha conhecida na Umbanda e no Candomblé.

Ébo: Limpeza espiritual realizada para melhorar a saúde, trabalho, financeiro e espiritual da pessoa. Normalmente é feito com ervas pelo Pai de santo.

Feitura de Santo: É quando o santo de cabeça, por exemplo o da Mãe Dirce é Iansã cobra o seu filho, pedindo a sua cabeça. É realizado um ritual de passagem.

Congá: Pequeno terreiro de Umbanda.

Iansã: Orixá conhecida por comandar os raios e trovões. É chamada de Iansã na Umbanda e Oyá no Candomblé.

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