Close
Brechó da Lurdes: o clube secreto da moda curitibana

Brechó da Lurdes: o clube secreto da moda curitibana

Ouvi falar do Brechó da Lurdes pela primeira vez em janeiro de 2017, em uma matéria com a foto de duas amigas em cima de uma pilha de roupas. A localização do texto era confusa, dizia ser algo entre as ruas Riachuelo, Alfredo Bufren e São Francisco e informava que o brechó não tinha número e para ajudar era sem fachada, sem placa, escuro e a Lurdes abria só quando queria.

Assim que li a matéria fui atrás desse brechó tão secreto. Subi e desci as três ruas indicadas. Procurei, em cada uma delas, estabelecimentos que não tinham placas e sim uma montanha de roupas. Sem sucesso algum e cruzando todas essas ruas por quase uma hora, desisti da Lurdes.

Eis que em novembro de 2017, conversando com o Davi (colaborador aqui do VP), comentei com ele sobre o tal brechó e mostrei a foto das meninas. Um dia após a conversa, fomos atrás do local e bem como vocês viram nesse vídeo, ACHAMOS O BRECHÓ DA LURDES!

Saia R$ 10,00. Regata R$ 5,00.
Saia R$ 10,00. Regata R$ 5,00.

Perguntamos sobre o estabelecimento para aproximadamente uns cinco comerciantes das rua. Alguns faziam cara de ponto de interrogação e diziam que nem sabiam do que se tratava, outros informaram bem por cima: “Sobe essa rua que você acha”; “É no meio da Rua Riachuelo”. Outro ponto que faz o lugar tão secreto: nem mesmo algumas pessoas que trabalham na rua em que ele está localizado o conhecem.

Por fim, encontramos o bendito. Nos avisaram que ela [a Lurdes] deixava a porta meio aberta caso estivesse atendendo e totalmente fechada se não estivesse atendendo. “Você tem que bater lá no portão dela para ela te deixar entrar”, disse um comerciante da região. Quando achamos, ficamos parados por quase um minuto encarando a porta da Lurdes e decidindo quem teria coragem de bater ou chamar ela. Eu bati e ouvi uma voz rouca dizer “já vou!”. Depois eu entendi que a demora para atender, era justamente porque ela estava lá no meio do monte de roupas.

Dentro do Brechó da Lurdes

A porta, típica dos comércios do centro, estava mesmo mais fechada do que aberta. Para entrarmos ela abriu mais um pouquinho, mas ainda sim tivemos que nos abaixar. Lurdes usava uma blusa estampada com as cores azul, rosa e verde e uma calça preta. Uma pequena bolsa de couro transversal passava por sua blusa. Não, a Lurdes não é nada fashionista. Seu cabelo é grisalho e estava preso um coque. A senhora, de uns 50 anos, usa um óculos de grau quadrado que na maioria das vezes em que eu olhava para ela, estava no topo de sua cabeça.

Moom Jeans R$ 10,00.
Moom Jeans R$ 10,00

A primeira coisa que ela faz com quem chega no lugar é tirar a bolsa. “Esses tempos uma menina perdeu um celular aqui e foi uma dor de cabeça. Agora eu pego as bolsas, deixo escondidas e quando eles vão embora eu devolvo”, explicou. Depois ela manda você subir a pilha de roupas e se virar. “Não tem coragem, é?!” ela disse em um primeiro momento ao Davi, enquanto encarávamos aquele lugar surreal. É realmente sobre isso que se trata o espaço: milhões de roupas amontoadas, uma em cima da outra, até o teto. Algumas ficam guardadas em sacolas que só tem peças de veludo, de lã, de seda, somente regatas, calças e por aí vai.

Brechó da Lurdes

Para escalar as roupas e chegar ao topo delas, ela até ajuda. Joga uma das sacolas citadas acima no chão e vai montando uma escada para chegar. E quando você chega lá, esqueça das suas pernas esticadas, o lugar só permite que você fique de joelhos. Uma vez no alto, o cuidado é essencial. Você realmente fica no topo da montanha, ou seja, no teto, então as chances de você bater a cabeça no Brechó da Lurdes são enormes.

A princípio a Lurdes é desconfiada, ainda mais com quem nunca foi lá. Ela fica em cima de você, te olhando com uma cara séria e analisando cada um dos seus movimentos em cima das roupas. Ela puxa assunto com a primeira coisa que você fala quando chega. Eu e Davi falamos sobre ser estudantes de jornalismo, então depois disso a Lurdes quis saber tudo sobre a faculdade enquanto a gente procurava algo naquele amontoado de roupas. Depois de um tempo a Lurdes desceu e ficou quieta no canto dela, uma vez ou outra voltava a falar da faculdade e dava abertura para nós fazermos algumas perguntas em relação ao seu negócio.

Calça R$ 5,00. Regata R$ 5,00.
Calça R$ 5,00. Regata R$ 5,00.

Enquanto puxávamos as roupas e nos perguntávamos se algum dia seria possível ver tudo que ela vende ali, Lurdes explicou que aquele lugar costumava ser o depósito do seu outro brechó que ela fechou há pouco tempo, por isso a confusão em achar o local indicado na matéria antiga. Uma velha cliente chega no Brechó da Lurdes, no mesmo esquema em que a gente, batendo no portão e perguntando se a Lurdes estava lá. Quando ela entra já tira os sapatos – um esquema comum antes de subir o monte – e segue escalando a montanha de roupas. A menina, que usava um vestido rosa longo e um brinco redondo de plástico transparente, reclama com Lurdes em um clima de intimidade: “Caramba Lurdes, que bagunça. Aqui tem muito mais roupa que no outro brechó! É claustrofóbico!” e segue puxando as peças lá de cima e buscando por algo que fizesse seu estilo.

O fato dela ter uma montanha de roupas tanto jogadas quanto ensacoladas faz com que ela não compre mais nada. Um homem bate na porta e pergunta “Aqui é brechó? Aqui compra roupas?” e Lurdes grita lá de dentro “Não, aqui não é brechó!” e o homem vai embora. Ela nos conta que tem planos de abrir outro brechó em um endereço novo, mas não tem nada definido. O esquema, segundo ela, continuará o mesmo: ela joga as roupas até que fiquem amontoadas e as pessoas que se virem. “Quando eu abrir outro, vou fazer uma promoção de 5 peças por 10 reais”, já avisa a mulher que nessa altura nos diz que Lurdona é um nome que podemos chamá-la, em tom de brincadeira.

Preços e peças

Por lá pouco importam as etiquetas. É claro que dá para achar de tudo: um vestido da Banana Republic, um blazer da Zara, uma jaqueta jeans da Levi’s, uma calça de cós-alto estilo moom, um Qipao, vestido típico da China, que parece ter vindo diretamente de lá e ser de seda pura, um vestido que até parece ser da Versace, mas teve a etiqueta arrancada e substituída por uma escrito “doze reais”. Ah e esse é outro ponto importante: as roupas geralmente não tem preço na etiqueta. Tudo é perguntado para Lurdes, que às vezes parece até inventar os preços na hora.

Macacão R$ 10,00
Bermuda R$ 5,00
Bermuda R$ 5,00

Não dá para saber de fato de onde veio toda aquela roupa. Lurdes diz que foi comprando até que chegou aquele tanto, o que é aceitável considerando que seu brechó existe há quinze anos e tem clientes fiéis que divulgam o brechó no boca a boca e estão ali não só pela aventura de escalar a montanha de roupas ou pelo preço, mas também pela preocupação com o impacto ambiental da cadeia da moda, como no caso da fotógrafa Janis Lima que conhecemos por lá e que afirmou que se nega a comprar em fast fashions para evitar o lixo do mundo, reaproveitando roupas usadas e também para não alimentar o trabalho escravo. Na Lurdes, Janis menciona que já chegou a levar para casa 10 calças por R$ 160,00. Eu e o Davi conseguimos fechar 7 peças por R$ 50,00!

Crédito das fotos: Davi Carvalho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Close