Close
#3 cinema delas: ANNE FONTAINE

#3 cinema delas: ANNE FONTAINE

Sobre a coluna ‘Cinema delas’
Toda quarta-feira tem conversa com uma cineasta aqui no site e ainda tem vídeo com recomendações dos melhores e piores filmes de cada uma delas. Pra acompanhar, é só dar like, se inscrever e etc no canal e na página do VP.

Na coluna de hoje, apresento a diretora, roteirista e atriz Anne Fontaine. Ela é uma das cineastas contemporâneas mais importantes do cinema francês, conhecida por filmes como ‘Coco avant Chanel’, com Audrey Tautou, ‘Adore’, com Naomi Watts e Robin Wright, e ‘Les Innocentes’, exibido no Sundance Film Festival 2016. Para saber mais sobre os trabalhos dela, assista ao vídeo e leia nossa conversa:

No Brasil, acredito que “Coco avant Chanel” seja seu filme mais conhecido, tanto por pessoas que são ou não amantes do cinema. Inclusive, ele teve uma boa recepção na América do Norte. Como é receber reconhecimento nos Estados Unidos sendo uma diretora estrangeira com um filme sobre um ícone feminino que também é estrangeiro?

Reconhecimento é sempre bom, é claro, e foi emocionante fazer a “Coco Tour” pelos Estados Unidos com o grande time da Sony Classics. Entretanto, isso não mudou muito minha visão nem meu trabalho e, certamente, não criou fantasias sobre trabalhar em Hollywood. Eu estou bem ciente de que os tipos de filmes que faço seriam difíceis de serem feitos lá.

Como é o caso da Chanel, você conta histórias de mulheres de sucesso, que mostram sentimentos, são independentes, divertidas e estão sempre ativas, não veem a idade como obstáculo. E isso é raro, já que a maioria das mulheres mais velhas são representadas de uma maneira negativa pelo cinema. Você se preocupa com situações como essa, por exemplo, na hora de desenvolver suas personagens?

Você está certíssima, a maioria das minhas personagens não enxergam a idade como um obstáculo. Principalmente na espinha dorsal da narrativa de ‘Adore’, foi isso o que me atraiu no livro da Doris Lessing [um dos contos foi adaptado para este roteiro]. Mas não posso dizer que eu tenho uma opinião formada sobre esse assunto. É mais como uma intuição e uma tradução do meu ponto de vista global: eu vou até aonde não posso ir, mas eu não procuro ou prevejo o quando e como fazer isso.

O cinema francês não tem tantos tabus quanto Hollywood, por exemplo. Em ‘Nathalie’, o a relação das personagens é depende da interpretação do público, o que funciona muito bem. Mas o mesmo não pode ser dito sobre ‘Chloe’, no qual as personagens acabam se envolvendo de uma maneira mais explícita… Você tem alguma opinião sobre essa mudança?*

Eu vi (e gostei muito) de ‘Chloe’, mas não trabalhei com o roteiro do remake. Entretanto, confirmo que colocar as personagens na mesma cama foi uma maneira de mudar e, mesmo assim, manter-se ao roteiro original…

Foto: Bastidores de ‘Les Innocentes’.

Eu sei que a França tem outra cultura e que as mulheres têm quase as mesmas chances que os homens para trabalhar com cinema, mas além das oportunidades de ser uma diretora, você acha que há igualdade nos salários?**

Não sei se posso responder a essa questão, até onde eu sei, acredito que meu salário não tenha uma diferença tão significativa em relação ao que um homem recebe. Mas, não sei, é um assunto que nunca discuti com meus colegas.. Talvez, eu devesse!

Seus filmes mais recentes possuem mulheres nos papeis principais e são personagens que seriam facilmente julgadas pelas atitudes que tomam. Ao escolher um projeto, você acredita que pode transformar a perspectiva de como a sociedade vê essas mulheres?

Eu não sou tão ambiciosa. E penso que um filme não tem esse poder – os meus com certeza não têm… No máximo, eu apenas espero que meus longas estejam em uma cadeia mais ampla (cultural, social, política e etc) e que ajudem a mudar algumas perspectivas.

Em ‘Les Innocentes’ você não mostra as cenas de estupro, mas elas acontecem e os abusos são percebidos facilmente pelo público. Quando esse tipo de cena deveria ser explícito?

Em ‘Les Innocentes’ existiam muitas razões para que os estupros não fossem filmados. Desde o ponto de vista da narrativa, já que o espectador descobre a história por meio dos olhos da Mathilde, que não estava presente nessas situações. E, também, por ser uma questão de ética, porque fingir um estupro seria inapropriado para esse filme. Entretanto, isso não significa que eu faria o mesmo em outro filme…

Foto: Divulgação de ‘Nathalie’.

Ainda neste assunto. Existem discussões sobre homens dirigirem ou não cenas de estupro. Algumas mulheres afirmam que é necessário mostrar o horror, independentemente de ser diretor ou diretora. Outras acreditam ser inaceitável, já que um homem nunca entenderia essa situação. O que você pensa sobre essas opiniões?

Eu não tenho uma posição em princípio. Mas acho que a segunda opinião pode ser debatida, porque homens podem ser estuprados (e eles são). E o mais importante: experiência, compreensão e habilidade para mostrar esses assuntos são conceitos totalmente distintos.

Seu próximo filme, ‘Marvin’, vai focar na história de um garoto. Existe a mesma “pressão” ao trabalhar um homem no papel principal?

Não vejo nem sinto diferença. Para complementar também o debate da questão anterior, acredito que eu, como mulher, não entendo menos de personagens homens…

Por fim, você poderia recomendar alguns filmes dirigidos por mulheres?

Eu poderia recomendar uma lista bem longa, mas vou citar um que vi recentemente. Ele foi escrito e dirigido por uma – jovem – mulher chamada Léa Mysisus. ‘Ava’ foi exibido na semana dos críticos em Cannes, este ano. É um filme muito poderoso e talentoso, espero que chegue no Brasil logo.

 

*Pergunta sugerida por @bremmdx.
**Pergunta sugerida por @isabeliehuppert.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Close