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#4 cinema delas: SIGNE BAUMANE

#4 cinema delas: SIGNE BAUMANE

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Signe Baumane é da Letônia, mas mora em Nova York, nos Estados Unidos, onde recebeu o green card de “extraordinary ability alien”. Ela faz animações sobre depressão e sexo, e é a quarta entrevistada para a coluna ‘Cinema delas’.

Como surgiu a ideia de mostrar sentimentos e ideias que as pessoas geralmente tendem a não revelar?

Não houve um momento particular, mas o vasto mundo pessoal interno me interessa desde que aprendi a ler e escrever aos 6 anos. A medida em que o mundo se desenrola, todos nós temos comentários internos sobre o externo, não é mesmo? E eu queria explorar esse “mundo interno privado”. Só que entrei na animação por acidente, o que acabou sendo perfeito pra esse tipo de pensamento, porque ela pode mostrar qualquer coisa, não há limites para o que possa acontecer na animação. No processo de evolução como filmmaker, eu comecei a me perguntar o por quê da maioria dos filmes focarem apenas nas emoções externas, e não nos dramas internos — o que eu considero mais interessante. Então, me propus a fazer filmes diferentes.

A personagem principal de ‘Rocks in my Pockets’ leva seu nome e eu também li que ‘My Love Affair with Marriage’ será inspirado em sua vida. Você busca estar nas animações?

Nem sempre, mas qualquer artista com o mínimo de integridade também coloca suas experiências no próprio trabalho. Se eu decido retratar uma vida interna em meu filme, então minha própria vida interna está imediatamente disponível para ser retratada junto. Por exemplo, em ‘Birth’ não há personagens que levam meu nome e os acontecimentos não são iguais aos da minha vida. Entretanto, o filme aborda meus profundos medos sobre mudanças e mostra como fiquei assustada quando entrei em trabalho de parto. Da mesma forma, em ‘Teat Beat of Sex’ — os episódios são inspirados em minha vida e nos meus pensamentos, mas não aconteceram da mesma maneira na vida real. A personagem principal, inclusive, não tem meu nome, mas carrega minhas opiniões e atitudes.

‘Rocks in my Pockets’ fala sobre depressão. Crítica e público gostaram da abordagem, você achou que iria ter esse retorno?

Eu não comecei ‘Rocks In My Pockets’ pensando que iria ajudam alguém. Dei início ao filme porque sou uma cineasta e quando há uma história que quero contar, eu foco apenas em como contá-la da melhor maneira. Só depois que o longa foi lançado para o mundo que consegui compreender as reações do público, aí eu percebi que o filme poderia ajudar as pessoas a entenderem sofrimentos internos e pensamentos sobre ser auto-suficiente, como é passar por isso e como aprender aceitar a nós mesmos e essas situações.

E como o sexo surgiu nas suas animações?

Eu penso em sexo a cada 9 segundos, então surgiu naturalmente em meu trabalho. Meu segundo curta ‘Tiny Shoes’ (1993) foi um conto de fadas sobre casamento (eu adorava me casar), mas meu primeiro sobre sexo foi ‘Love Story’ (1998) e desenvolvi essa temática a partir dele. Nós, humanos, pensamos muito sobre sexo, mas nós não somos permitidos a pensar sobre isso. Especialmente se você for mulher — provavelmente porque qualquer expressão de força sexual feminina ameaça os controles e estruturas estabelecidas (se as mulheres fossem livres para ficar com quem quisessem e falassem sobre isso abertamente, como os homens poderiam garantir que seus genes fossem repassados?). Eu admito que estava apreensiva quando levei ‘Love Story’ para o primeiro festival, mas aprendi a abraçar críticas e julgamentos mal intencionados.

Qual foi a sua pior experiência em um dentista? Definitivamente vou mostrar ao meu dentista o episódio ‘Five Infomercials For Dentist: Anestesia’.

Eu cresci na União Soviética, onde nós tivemos uma nutrição fraca, então meus dentes começaram a desmoranar no momento em que surgiram em minha boca, aos 5 anos. Todos tinham consultas regulares e dolorosas com dentistas e não havia anestesia para procedimentos como tratamento de canal. Os dentistas soviéticos quase não possuíam ferramentas e materiais para furar e preencher cavidades. Então, na primeira vez que me consultei com um dentista em Nova York, ele olhou dentro da minha boca e perguntou: “Você fez isso sozinha?’. Imagine como estava ruim. Mas a dor só é intolerável quando você não pode rir dela. Todas as consultas (e acho que passei por isso com 30 dentistas até hoje) foram fontes de risadas internas enquanto eu estava sentada na cadeira. E, claro, precisei fazer dois filmes sobre isso.

Falando em Nova York, você também trabalha lá [Signe conversou comigo quando estava na Letônia]. Como é ser uma estrangeira na América?

Eu fui para Nova York em 1995. Tinha $300 no bolso, não tinha permissão para trabalhar e conhecia apenas uma pessoa na cidade. Mas vivo lá desde então e não gostaria de morar em nenhum outro lugar. Os dois primeiros anos foram os mais difíceis — para fazer amigos, arranjar trabalho, entender a cultura. Porém, no começo, eu acho que ser mulher facilitou meu caminho, porque ninguém espera muito de uma mulher, então eu estava livre para tentar, não tinha pressão ou medo de falhar. Somente quando fiquei mais confortável e mais ambiciosa é que comecei a sentir as limitações. A indústria do cinema e da tv é orientada ao homem de 19–20 anos e eles continuam se referindo a esse espectador quando rejeitam seu trabalho: “Oh, seu estilo é maravilhoso, mas é muito feminino, nós ficamos preocupados que nosso espectador de 19–20 anos não goste”. Claro, há outras chances além disso — há suportes sem fins lucrativos e subsídios para filmes feitos fora da estrutura comercial. Mas filmes que saem de orçamentos sem fins lucrativos são considerados marginais. Vejo muitas mulheres trabalhando dessa maneira. O centro — Hollywood — continua bancando grandes produções para diretores homens.

Sei que na Europa há mais oportunidades para as mulheres. Mas mesmo assim, como funciona na Letônia? Talvez a animação tenha outra perspectiva sobre isso…

Eu não sou uma expert em como as coisas estão na Letônia, mas no geral parece que há mais animadoras aqui do que nos Estados Unidos. Talvez porque na América o interesse pela animação esteja mais relacionado à cultura de HQs, que foca no público jovem masculino. Enquanto isso, na Letônia, a animação é considerada uma forma de “Applied Arts”, oposta à “High Arts”. É como tricô x pintura abstrata — o prestígio ainda não está lá. Então, as mulheres entraram na animação porque esta foi considerada uma arte mais adequada a elas. Quando eu era mais jovem e estava fazendo meus primeiros três filmes na Letônia, sofri desdém do câmera, do designer de som e da equipe técnica do laboratório, que era exclusivamente masculina. Foi pela minha idade ou porque era mulher ou ambos? Vai saber.

E você tem um novo filme a caminho. O que podemos esperar dele?

Sim! É um filme que irá combinar meus dois temas principais — sexo e depressão. Vai falar sobre casamento e será baseado em minhas experiências pessoais. Por meio de uma campanha, em fevereiro, juntamos mais de $132 mil para produzir ‘My Love Affair With Marriage’, que já está sendo gravado. Na campanha, dá pra acompanhar o andamento do filme.

Por fim, você pode recomendar filmes feitos por mulheres?

Eu fiquei muito empolgada quando vi ‘Wadjda’, da Haifaa al-Mansour. Ainda acho que esse é um dos melhores filmes de todos os tempos. Outro longa incrível é ‘Mustang’, da Deniz Gamze Ergüven. Já animações gosto muito de ‘Window Horses: The Poetic Persian Epiphany of Rosie Ming’, da Ann Marie Fleming. E também de ‘Sita Sings the Blues’, da Nina Paley.

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