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Cuidado! Frágil

Cuidado! Frágil

O remédio é sempre o mesmo. A farmácia também.
O dia? Todo dia 30. Exodus, 20 miligramas, mais especificamente.

A questão é: hoje optei por dirigir até outra farmácia, mais longe de casa. Hábitos de quem tem cadastro de desconto em supermercado. Tipo Clube Condor…
Chego à farmácia ás 10h26, mais especificamente. Ao sair do carro, vejo de relance, uma moça. Olhos inchados. Deve ter uns trinta e três. Chora compulsivamente. Percebe-se pelo som que ultrapassa a porta de vidro. E são olhos de quem chora há dias.

Entro na fila e aguardo, enquanto, todos começam lentamente a se afastar, formando um grande círculo em torno da moça. Calculo cinco ou seis pessoas na farmácia. Ninguém se manifesta. Estamos – inclusive eu – visivelmente desconfortáveis frente à cena. Vem à minha mente elaborações, como as de Kerouac em Vagabundos Iluminados. Penso que quando o frágil surge, nós entramos em pânico. Sabe deus – ou Deus – o que acontece. As relações humanas são uma piada pronta, com notas de paralisia corporal coletiva como esta.

(Voltando a cena):
Então, surge uma criança de trás da prateleira de shampoos e sabonetes temáticos das princesas da disney e turma da mônica.
Ela, a criança, aparenta uns quatro anos, no máximo. De olhinhos miúdos, abraça a moça, ainda chorosa. Logo segura suas mãos e pergunta em tom acolhedor:

– O que aconteceu, tia?
– Você quer água?
– Vai ficar tudo bem… Não se ‘preocupa’!

O que nos tornamos após os cinco anos de idade? Fico me perguntando. Será que é aquele papo de abandonamos a respiração natural dos bebês? Aquela coisa de respirar com apoio no diafragma? Será? Ou simplesmente nos tornos seres embrutecidos? Compro o Exodus 20 miligramas e o tomo ali mesmo. Dois de uma vez.

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