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Curitiba, uma cidade de Axé
Via Palermo 42

Curitiba, uma cidade de Axé

*Kamilla Deffert e Markus Araújo

(Para entender os termos da matéria, ao final dela você pode conferir um dicionário das palavras que são comuns nas religiões citadas).

As histórias seguintes narram a vida de 4 personagens. Eles podem ser brancos, pardos ou negros. Seus cabelos podem ser crespos ou lisos, seus olhos podem ser grandes, redondos, puxadinhos, pequenos, claros ou escuros. Eles tem nome e suas histórias podem ser tão importantes quanto as que você conhece.

Com passo devagar, a Ialorixá Dirce de Iansã atravessa a rua em direção à Galeria Tobias de Macedo. Vestida com sua saia branca e um torço – um tipo de xale – cobrindo os cabelos espessos e bem longos, de um tom preto azulado. No pescoço, um colar de contas coloridas destoa da vestimenta inteira branca. Definitivamente, a senhora chama a atenção de todos. Na metade do caminho, parou na Praça Tiradentes e fez um agradecimento aos Irôkos – no Brasil, conhecidas como Gameleiras brancas – nome dado às grandes árvores encontradas na praça Tiradentes, pelos os crentes das religiões de matrizes africana, como a Umbanda e o Candomblé. Essas árvores são sagradas, representam o orixá, que é senhor de todas as árvores sagradas, e também simbolizam o orixá mais velho vindo à terra. Graças a ele que outros orixás cultuados na religião puderam vir.

A cada passo que dava ela via pessoas fazendo o sinal da Cruz, em forma de pedir proteção, mas mesmo assim a senhora mantinha sua caminhada firme, com a cabeça erguida. Entra na “Casa dos Orixás”, tira uma pequena lista de material da bolsa e entrega ao funcionário da loja. Ele embrulha para ela em um jornal velho um maço de velas brancas, um pote de mel, uma vela de sete dias, algumas caixas de incensos e um livro que acompanha um jogo de cartas. Dirce sobe um degrau à sua direita, passa por uma prateleira cheia de vidros de essências e velas perfumadas até chegar ao caixa. Ali ela paga a sua conta, pega a sua sacola e se dirige para a saída.

Dirce caminhava em direção ao ponto no qual vai pegar o ônibus para casa, mas é abordada por um rapaz alto e de terno.

– Você aceita ouvir a palavra de Deus? Essa religião não vai te levar a nada, afirma, em tom acusador.

– Agradeço. Que Deus te ilumine, mas estou com pressa! – Respondeu a Ialorixá. Como se não bastasse, ao entrar no ônibus e se sentar no banco preferencial a mãe de santo ainda ouve comentários preconceituosos vindo de uma cobradora.

– O ônibus está sendo frequentado por algumas pessoas que eu não gostaria de sentar ao lado.

Essa não foi a única vez que a Mãe de Santo sofreu preconceito. Todos os dias que ela precisa ir ao centro da cidade para resolver alguma coisa, ou comprar materiais para realizar os trabalhos dos clientes, ela sofre com os olhares e muitas vezes escuta comentários maldosos.

– As pessoas olham com a cara feia, não gostam que entre nos estabelecimentos e demonstram medo.

Era sexta-feira, o relógio marcava oito da noite, César chegou adiantado em quase meia hora para o toque de Umbanda começar naquele terreiro que prometeu ajudar. No começo da semana, o Ogã recebeu uma ligação de seu Ialorixá pedindo que ele ajudasse tocando atabaque em um terreiro amigo. Naquela noite, César já estava vestido de branco e usando sua guia branca com vermelho no pescoço, tendo em vista que antes de ir ao toque no terreiro, já havia ajudado o seu pai, que também é dono de um terreiro.

A rua em frente ao lugar em que ia era escura e estava lotada de carros. O Ogã demorou para achar um lugar bom para estacionar. Na mesma rua da casa de Orixá, havia uma Igreja Evangélica, e foi entre os carros dos fiéis que o Ogã deixou o seu.

Ao descer do carro e caminhar em direção ao terreiro o Ogã foi surpreendido. O Pastor, responsável por aquele templo, saia de dentro acompanhado por cachorros. César acelera os passos e volta rapidamente para o carro, tentando escapar dos cães que foram todos para cima dele. O rapaz precisou dar retorno na quadra para chegar mais tarde, a fim de evitar ser atacado pelo pastor e seus cães.

Umbanda e Candomblé – Ligação entre crença e misticismo

Por volta das duas da tarde de um sábado, o tempo estava esquisito, um pouco nublado e abafado. Há alguns quilômetros de distância, em um movimentado bairro de Curitiba, de origem italiana, com muitos restaurantes que servem frango frito com polenta, mora uma outra mãe de santo, Maria Joana ou, Mãe Joana como é conhecida a negra, de cabelos curtos, bem espessos e pretos.

– Boa tarde! – Cumprimenta – Sou Dofona e Ialorixá de Oxum, no caso Iorubá de Oxum e eu tenho 71 anos. Se apresentou a mãe de santo, sentada a frente de um altar, rodeado de flores de girassol em um vaso alto, imagens de Oxalá e Iemanjá ficavam no centro, na base do altar estava uma imagem de uma santa que parece ser Nossa Senhora, padroeira do Brasil, negra e alta com seu manto e uma coroa no topo da cabeça. No topo do altar outra imagem, dessa vez de Oxalá, com seus braços abertos, recebendo os outros santos cultuados.

Sua vestimenta era branca com detalhes prateados e combinava com os enfeites do teto: pequenos pedaços de fita metalizadas, reluzentes ao bater da luz e esvoaçantes ao bater do vento que vinha de um pequeno ventilador pregado no teto. Tudo ali parecia dançar junto às batidas de atabaque.

No centro do terreiro há um tronco de gameleira branca, decorado por um Ojá e ao seu redor há folhas de palmeiras pintadas de azul no topo, homenageando a morada de Irôko na casa. Os barulhos ao fundo, vindo da vassoura sendo esfregada na calçada e a louça sendo lavada, anunciam que naquela noite haverá toque. Um pequeno corredor, no qual ficam alguns animais e dão acesso a entrada do sobrado onde habita a mãe e sua família que consiste em três filhos, duas meninas e um menino, e seu marido, com quem é casada há cerca de 58 anos.

Joana desde pequena teve uma ligação muito forte com a crença e o misticismo. Sua avó era benzedeira e sua mãe também seguiu os passos da mãe.

Embora hoje a Ialorixá se dedique às religiões de matrizes africana, na sua adolescência passou seu tempo dentro de uma Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Quando ficou mais velha, a mãe de santo conheceu seu marido dentro da Igreja, antes de casar-se com ele, os dois fizeram uma promessa. Na época em que se casou a mãe de Santo tinha apenas 13 anos.

– Nós combinamos que o dia que nos casássemos e pudéssemos andar com as nossas pernas, sem ajuda dos familiares, iriamos escolher a nossa religião.

Joana não se sentia bem frequentando a Igreja Evangélica, não podendo usar a roupa que desejava e nem o cabelo solto. Para usar trança nos cabelos negros e grossos, ela lembra que era um sacrifício. Ela não se encontrou na Igreja.

– Havia tantas proibições e tantas coisas erradas com pessoas de dentro de igreja e de religião.

Mãe Joana começou na Umbanda, após abandonar a Assembléia de Deus, 12 anos depois foi para o Candomblé e permanece até hoje:

– A Umbanda é amor e caridade, mas chega um momento na vida de cada pessoa que ela procura ajuda no espiritismo, tanto curas, quanto a evolução espiritual, que tem uma hora que a umbanda não tem muito o que fazer, ela tem um limite – Mãe Joana procurou uma energia muito maior, com mais fundamento e encontrou o Candomblé.

E foi assim que Mãe Joana escolheu seguir as religiões que mexem com o ocultismo, o misticismo, cultuando os orixás e até hoje está na religião que a conecta com as forças da natureza todos os dias.

Sentada em um banco com um terço na mão, a mãe de santo realiza nas quarta-feiras (Dia de sua folga) uma novena. Ela reza por pessoas que estão pedindo ajuda. Para ela, ajudar ao próximo sem desejar nada em troca é uma das coisas mais importantes cultuadas na religião. O Candomblé ensina que é preciso ajudar sempre o próximo e nunca mandar alguém que bateu a sua porta precisando de ajuda embora.

– Quando a pessoa precisa de ajuda, você tira de você para ajudar aquela pessoa, seja porque está sem emprego, ou porque não consegue. Você a ajuda sem nada em troca, reza para ver a pessoa bem. Não podemos deixar ela ir embora sem ao menos fazer algo por ela.

Combatendo a Intolerância

Diante dos paralelepípedos do coração do Largo da Ordem e da velha Igreja do Rosário, que foi construída por escravos, diversas pessoas caracterizadas com suas roupas brancas caminhavam pelo colorido centro histórico de Curitiba. Os paralelepípedos estavam escaldantes por causa do sol forte, que iluminava todo o caminho. A frase “Xeto Maromba Xeto” que em português significa “Braços Fortes, Pulso Firme” era usada a todo instante para demonstrar a luta do combate à Intolerância Religiosa. Segundo o Disque 100, as religiões de matrizes africanas representam 44% das denúncias de preconceito feitas em 2016. A pesquisa aponta que 14% das vítimas dizem que sofrem preconceito na rua. Aquele dia, 15 de Novembro, o Largo da Ordem era um lugar seguro para os praticantes da Umbanda e Candomblé, aquele dia, não existia preconceito, medo e sofrimento. Só havia festa, paz e amor.

Foto: Moacyr Lopes Júnio

No centro de Curitiba, o som dos atabaques e tambores se misturavam com as vozes que cantavam o Hino da Umbanda em homenagem ao dia da religião.

A vozes entoavam o cântico “Refletiu a Luz Divina / Com todo seu esplendor / É do reino de Oxalá / Onde há paz e amor / Luz que refletiu na terra / Luz que refletiu no mar / Luz que veio de Aruanda / Para tudo iluminar / A Umbanda é paz e amor…”

As religiões de matrizes africanas estão no Brasil há bastante tempo, vindas junto com os escravos. O Candomblé é um culto aos orixás, as divindades. Já a umbanda cultua a ancestralidade do Brasil, como os caboclos e pretos velhos. Para os praticantes das religiões afro-brasileiras, os pretos velhos são espíritos dos velhos africanos, que viviam nas senzalas. Mas as duas pregam o amor e o respeito ao próximo.

– Toda essa intolerância e todo o preconceito devem ficar para trás. A gente quer ter o respeito perante todos – fala Flávio, um jovem Babalorixá.

Babalorixá Flávio Macielx é um chefe espiritual e administrador Alaafia, se destaca de todos que estavam participando do evento em homenagem a Umbanda. Todos vestiam branco, mas Flávio vestia um Alaká, um pano de origem africana que se coloca nas costas, na cor azul. Com detalhes coloridos e diversas guias de contas penduradas no pescoço, quando visto de perfil, em suas orelhas era possível notar um brinco de argola prateado que balançava. Nos olhos, um óculos de Sol protegia a vista da luz, as lentes escuras encobriram seus olhos, mas dava para perceber, no seu modo de falar e de gesticular, que Flávio é um homem jovem, pouco mais de 25 anos. Flávio é iniciado no Candomblé.

Mesmo sendo novo, Flávio tem uma concepção do preconceito contra as religiões africanas e sabe que esse preconceito está enraizado no país.

– Já venho fazendo esse trabalho de levar informações às escolas, abrir espaço na sociedade sobre a religião.

São diversas palestras nos colégios, escolas e faculdades. E o mês de novembro é o mais propício para os debates sobre preconceito. No dia 15, foi comemorado o dia Nacional da Umbanda, uma multidão de pessoas estavam caminhando no Largo da Ordem, bairro histórico de Curitiba, eram jovens, crianças e adultos acompanhados pelos ritmos dos atabaques, todos se reuniram em suas cidades pedindo o apoio à religião. No dia 20, foi o dia da consciência negra, muitos estados não decretaram feriado para a data, mas a luta do movimento negro continua e o preconceito também.

Quem nasce no Candomblé ou na Umbanda, tem uma oportunidade única de desconstruir tudo o que a sociedade coloca como empecilho: que o diferente é errado, que deve ser temido e permanecer longe. As crianças dessa religião, aprendem desde cedo que devem acolher, que nem todos são iguais, mas que devem ser amigos e respeitar.

A intolerância é o ato de não respeitar e nem reconhecer as diferenças tanto em crenças quanto em opiniões. A histórias de Mãe Dirce, César, Mãe Joana e o mais jovem de todos, Flávio, mostram que todos são comuns em suas religiões, que pregam o bem e, acima de tudo pedem respeito.

Onde existe a ignorância, falta o debate e a conversa. Por isso existe o preconceito e ele está longe de acabar. Ninguém nasce preconceituoso, isso é ensinado com o que lhe é mostrado e vivenciado no dia a dia. Para acabar com a intolerância, é preciso conhecer e entender que o outro também é portador de direitos, que pode exercer a sua religião e se expressar da maneira como ele acha correto.

    Entenda os termos:

Alaká: Pano estilo lenço amarrados nas costas.
Aruanda: Nome dado ao plano espiritual cultuado nas religiões de matrizes africana.
Atabaques: Instrumento musical, é um tambor feito com couro e madeira usado para cultuar os orixás.
Axé: É considerada a força de cada orixá.
Babalorixá: É o chefe da Casa, tem o mesmo significado que Pai de Santo, no feminino é representado como Ialorixá
Crença: Ato de acreditar ou confiar em algo.
Dofono ou Dofona: Termo utilizado no Candomblé de para designar o filho que conduziu o “barco” na saída de santo. Normalmente o “barco” pode ser composto de um filho de santo, chegando até sete pessoas. É classificando do orixá mais velho para o novo, ficando nessa ordem: Dofono/Dofona, Dofonitinho/ Dofonitinha , Fomo/ Foma, Fomotinho/Fomotinha, Gamo/ Gama, Gamotinho/ Gamotinha e Dotelo/Dotela.
Ialorixá: Termo feminino, representa o mesmo que a Mãe de Santo ou chefe de casa, no Masculino é chamado de Babalorixá
Iansã: Representada na Umbanda como a orixá que comanda os trovões e a guerra. As pessoas que carregam esse orixá, são guerreiras, fortes e com um temperamento firme. No Candomblé é conhecida como Oyá
Iemanjá: Representa na Umbanda a orixá que comanda os mares, no Candomblé. As pessoas que carregam esse orixá, são determinadas, sinceras e belas de alma.
Iorubá: Nome dado ao povo que mora na África do Sul,
Irokô: Grandes árvores da Cultura Africanas. Na matriz do Candomblé do Ketu são cultuados como uma representação do Deus Irokô (Discórdia), já no Brasil as árvores que representam o Orixá são as gameleiras brancas. Na história africanas é contado que o Irokô foi o primeiro Orixá a descer na terra, o que fez com que os outros orixás também chegassem. Nos terreiros de Umbanda e Candomblé encontramos no centro das casas um troco de gameleira branca ou Eucalipto representando a casa de Irokô.
Ogã: Filhos de Santo responsáveis por cuidar e auxiliar no Terreiro, normalmente cuidam dos atabaques.
Ojá: Pano estilo lenço amarrado na cabeça.
Orixás: São ancestrais cultuados na religião.
Oxalá: Representado na Umbanda como Jesus. É considerado um dos deuses mais velhos de religião. As pessoas que carregam esse santo, são calmas e generosas.
Oxum: Representada na Umbanda como o orixá do amor e da Harmonia. As pessoas que carregam essa orixá, são calmas e amorosas e fazem de tudo para ajudar quem mais precisa.
Umbanda e Candomblé: As duas são religiões de matrizes africanas. Enquanto a Umbanda é uma das matrizes criada no Brasil, o Candomblé é panteísta, uma religião que acreditam em apenas um deus, mas que existem vários outros deuses (Orixás).
Xeto Maromba Xeto: Expressão usada para demonstrar força e poder na Umbanda, significa “Braços fortes, pulsos firmes”.

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