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Eu só quero voltar para minha casa
Brayan Valêncio

Eu só quero voltar para minha casa

O eu que eu escolhi ser

Prazer, me chamo C. A. D., mas pode me chamar de Cadu. Você provavelmente me conhece ou, pelo menos, já ouviu falar de mim. Eu, sinceramente, gostaria que você não me conhecesse. Pelo menos dessa forma, não. Mas já que você me conhece, eu quero então contar um pedaço da minha história. Um pedaço que fala muito sobre quem eu era. Sobre o que eu escolhi ser.

Por nome nós já estamos apresentados, não é? Então deixa eu te contar um pouco mais. Meus olhos são castanhos, o meu cabelo é claro, mas não chega a ser loiro. Digamos que eu… eu sou sarado, tenho 1,85 de altura e sou bem bonito para um rapaz de quase 40 anos. Você deve estar me achando metido, bem, eu sou leonino e acredito muito que os signos definem a personalidade da pessoa. Então, não fique achando que eu sou arrogante, eu apenas nasci no dia 29 de julho. E isso não é culpa minha, é? Se for, eu não ligo.

Sou um espírito livre, sabe? Aliás, gosto muito de dizer isso: EU SOU UM ESPÍRITO LIVRE. Desde cedo eu soube o que queria ser. As coisas 25 anos atrás não eram tão, digamos, fáceis como são hoje. E mesmo não tendo muitas referências para me inspirar, eu meti a cara. Eu contrariei tudo aquilo que as pessoas esperavam. Eu decidi que seria eu, logo aos 13 anos. E assim foi. Espírito livre. É, talvez isso, no fim das contas, tenha te feito me conhecer.

Bom, já deve ter ficado claro aonde eu quero chegar, né? Esse negócio de jogar nas entrelinhas não é comigo, vou ser bem direito, vai. Eu sou bem egoísta, gosto de algo que eu já tenho, se é que você me entende… Você não parece ter se agradado muito com essa minha fala, é que eu sou meio desbocado e perco o amigo, mas não perco a piada. Mas o que eu quero dizer é que eu sou gay. Sempre fui gay. E isso nunca foi um problema, até recentemente.

Ah, quer saber, o problema não é meu. O problema é de quem consegue se importar mais com a vida dos outros, do que com seus próprios sonhos, suas próprias realizações, seus objetivos. Eu nunca fui assim, minha família sempre teve uma condição de vida estável e eu tive uma boa educação. Minha família sempre me respeitou e entendeu desde o começo que eu não iria casar, ter filhos, ser um pai de família. Não. Isso nunca foi pra mim.

Eu gostava mesmo é de balada, de beijar na boca, de curtir. Quando os 18 anos chegaram. Ai. Que alegria! Eu finalmente podia ser independente. E assim foi. Tentei umas faculdades, acabei não gostando muito e percebi que eu deveria ser o meu próprio chefe. Acabei virando técnico de Informática e trabalhei por um bom tempo nessa área, mas eu não conseguia aquele retorno financeiro que eu esperava. O serviço era muito irregular e eu resolvi mexer com computação só nas horas vagas.

Resolvi que abriria alguma coisa, mas sozinho eu não daria conta. E foi aí que os meus pais me ajudaram pela última vez até o dia 14 de maio de 2017. Eu prometi para mim mesmo que a última ajuda que meu pai me daria seria para montar minha loja. Depois disso? Eu seria, você já sabe… Um espírito livre! E assim foi, já faz 10 anos que eu toco a minha vida independente. Eu estava bem realizado. Namorava um carinha muito legal. Mas a gente brigou. Ele trabalhava muito. Eu era ciumento… Já sabe, né? Quê? Se eu me arrependo? Claro que não! Eu gostava dele. Mas ele nunca foi como eu.

5 anos, formado, bem de vida, enfermeiro-chefe do Hospital Evangélico – irônico, essa parte, não acha? E nunca se assumiu! Eu não sei como a família não descobriu ainda. Na verdade, eles devem se fazer. Ninguém passa dos 30 só arrumando uma “namoradinha” aqui, outra ali. Ele já não é mais nenhum adolescente, sabe? Ah não, pra mim não dava. Eu tentei fazer ele se assumir. Poxa, a gente tava bem. Ele preferiu ir por outros caminhos. Enfim, não vou julgar se ele prefere se internar no trabalho para esquecer e reprimir aquilo que ele sente. Pelo menos isso é o que eu penso.

Mas a vida não é feita só de decepções, não é? Se eu te falar que eu adoro cachorros, porque eles são sempre fiéis, você acredita? Pois é, animais sempre foram a minha vida. Meus dogs sempre foram os meus melhores amigos. Eu contava minhas angústias, eu reclamava, eu descontava minha raiva e eles sempre estavam lá. Nunca me julgaram. Que outro ser vivo faz isso? Mas voltando para a minha vida. Eu tava solteiro. Chateado pelo dito cujo, mas realizado. Tava com academia em dia. Porque, né, vamos combinar, aparência é tudo. Sabe, eu tava vendendo bem. Eu já tinha construído minha rotina.

Cheguei em uma idade em que resolvi me acomodar. Não queria mais sair da minha zona de conforto. Vivi desafios a vida toda. Era hora de só aproveitar. Era assim que ia ser. Pelo menos era o que era para ser. Eu tava mudando. Tava, acho, amadurecendo. Acho que eu tava ficando é velho. Mas, calma aí. Tem coisas que não mudam. Meus amigos sempre falaram que eu era muito animado. Eu adorava fazer piadas. Nunca fui um cara de ter mau humor.

Sempre achei que é muito mais fácil sorrir do que franzir a testa. Inclusive, cuidava dos meus dentes como se fossem o meu ponto forte. Eu não tenho vergonha de dizer que eu gastava muito comigo mesmo. Ah, as duas melhores coisas da vida são estar satisfeito consigo próprio e dormir. Dormir é bom, né? Meu Deus, eu amava dormir. Acordava pisando em algodões. Hoje eu sinto muita saudade disso tudo.

Mas assim, eu tô enrolando e sei aonde você quer que eu chegue. Vou tentar ser mais objetivo. Só peço que entenda que ainda é difícil lembrar de tudo e… e não é fácil. É… não é fácil. Tá. Eu fazia a minha rotina, levava o dog para passear à tarde, logo depois do expediente. Corria pelo bairro. Era uma distração. Mas, assim, nas últimas semanas eu cruzava com uma certa pessoa.

Sei que é estranho, mas eu sabia que tinha algo de errado com aquele cara. Ele sempre tava de boné e gorro. Não importava a temperatura. Ele estava todo dia no mesmo lugar. Nas primeiras vezes eu achava que ele queria me roubar. Depois pensei que ele, como eu, ficava naquele lugar por rotina. Passei a não dar muita bola. Até o dia 14 de maio. Eu estava com o dog, caminhando tranquilo pela Rua Alberto Bolliger. Depois de comprar um lanche, um homem me abordou. Aquele homem.

Eu pensei que fosse um assalto, mas ele apenas chegou me xingando e jogando o ácido fortíssimo em mim.

O eu que me fizeram ser

Eu estava passeando perto de casa e jamais imaginei que isso pudesse acontecer. Minhas roupas derreteram e, até onde eu sei, um casal me socorreu. Eles chamaram a polícia e o Siate. Eu fui levado para o Hospital Evangélico e fiquei lá por mais de três meses. Eu não consigo lembrar de muita coisa. Eu só lembro da dor. Era horrível. Ele só disse “toma aqui, viado!”, jogou o ácido em mim e correu. Nem nos meus piores sonhos eu pensei que fosse passar por isso.

Eu espero que você me desculpe por estar cansado e meio sonolento. Eu acabei de tomar morfina para ver se a dor diminui. Mas eu vou tentar contar tudo. Já veio o Fantástico aqui. Já gravei pra RIC. Tem gente de todos os lugares. Esses dias me perguntaram se eu não me incomodo. Ruim de lembrar, é. Mas eu faço qualquer coisa para ajudar a divulgar a causa LGBT. Coisas assim não podem acontecer mais.

Bom, voltando para o dia em que eu fui atacado, o ácido que me atingiu pegou grande parte do meu corpo. Meu peito e minhas costas derreteram junto com as minhas roupas. Meus braços ficaram em uma situação horrível. Eu parecia um boneco de anatomia. Eu perdi todo o cabelo e o couro cabeludo. O meu rosto foi inteiro atingido.

Mas a pior dor foi a do olho e da boca. O ácido atingiu meu olho esquerdo. É inexplicável. Eu senti meu olho corroer minuto a minuto. Era impossível não gritar. Quando eu abri a boca, o ácido escorreu e pegou nos meus dentes. Eu pensei que fosse morrer. Vi meus dentes caindo um por um. Foi tudo muito rápido. Pareceu uma eternidade.

Passei dias desacordado no Hospital Evangélico. Quando acordei, eu percebi que não conseguia mais me mexer. Eu estava preso em uma cama. Tudo era muito confuso. Eu só conseguia entender que o meu corpo estava todo enfaixado. Um dos olhos estava coberto por uma compressa dobrada. Minutos depois o médico chegou e me explicou.

Eu havia perdido não só o olho, mas o ácido corroeu toda a minha sobrancelha e a minha pálpebra. A destruição foi tão grande, que era impossível tirar meu olho. Eu perdi uma parte do meu rosto e não tem mais o que fazer. Minha boca mexia pouco. Ele me explicou que eu perdi todos os dentes no atentado. Minha gengiva tinha sido corroída e não tem como colocar uma prótese.

Foram muitos dias naquela cama. Meu mundo mudou. Depois de dois meses eu comecei a andar de novo. Parecendo um robô, mas já era um começo. Comecei a voltar a viver. Mas era uma nova vida. E no pior sentido possível. Eu dormia mal. Tive muitos pesadelos. Todo dia eu acordava com um ódio. Um ódio gigantesco. Era uma vontade de morrer. Uma dor.

Eu perdia a paciência fácil. Eu brigava com os enfermeiros. Eu não queria dividir quarto com aqueles outros queimados. Eu não queria polícia na porta do meu quarto. Eu queria solidão. Eu queria me isolar. Isolar para ver se eu esquecia daquele lugar podre. Da minha desgraçada condição.

Eu me sentia um espantalho. Teve um dia que me levaram para o centro cirúrgico e não me falaram nada. Eu comecei a gritar loucamente dizendo que eu não ia deixar que mexessem em mim sem que me falassem o que iriam fazer. Desde então o médico sempre me conta o procedimento que vai realizar.

Até julho eu já tinha feito 16 cirurgias de enxerto na pele. O meu corpo inteiro estava destruído. Sabe o que é pior? O responsável por cuidar de mim era aquele dito cujo. Ele sentia muita pena. A gente nunca conversou sobre o nosso passado. A única certeza que eu tive é de que ele nunca mais cogitaria sequer a hipótese de se assumir. Na cabeça dele deveriam borbulhar muitas coisas. Ele deveria estar pensando que poderia ter sido com ele. Certamente isso tudo também o afetou.

A polícia conversou muito comigo. Hoje eu sei que tem dois suspeitos. Ambos batem com o retrato falado que eu montei. Ele usava um óculos de grau. Um moletom cinza. Um boné preto. A pele era morena e ele tinha uma barba por fazer. Tinha também um bigode. Foi bem rápido, mas eu nunca vou esquecer. Com base na investigação, a polícia chegou a dois suspeitos.

O primeiro é um fiel seguidor do Donald Trump e Jair Bolsonaro. Ele é extremamente conservador e acredita na família tradicional. Já o segundo é ligado ao Estado Islâmico e também acredita que o terror é a única forma de se manter a ordem.

Mas sabe o que é o pior? Ambos são casados, têm filhos e, apesar de terem esses comportamentos nas redes sociais, as buscas na internet estão sempre ligadas a conteúdos gays. Eles passam horas da madrugada olhando sites gays. O discurso não bate com a realidade. Então, segundo a polícia, eles são pessoas que não puderam externalizar aquilo que eles verdadeiramente eram.

Eles acham que, se você punir pessoas que cometem “pecados” que eles desejam, vão acabar sendo “purificados” pelas vontades que os afligem. Eu não fui uma vítima qualquer. Quem fez isso conhecia minha rotina, sabia que eu era gay e sabia qual era o melhor momento para me atacar. O que mais me assusta é que pode ter sido alguém conhecido.

Eu não vou desistir de viver. Já falei com a minha mãe. Vou fazer muitas cirurgias plásticas e quero tentar melhorar a minha vida. É horrível. Eu sei que nunca mais vai ser igual. Eu acordo todos os dias com ódio de viver e não consigo mais sentir alegria e satisfação nas coisas. Minha vida foi destruída, mas eu preciso recomeçar.

Hoje eu só tenho um olho castanho. Não tenho mais cabelo. Meus dentes não são meu maior charme. E meu corpo sarado agora é formado por partes de peles das minhas pernas e de outras pessoas, inclusive defuntos. Eu tô tentando seguir. O desgraçado também se queimou com o ácido.

Bom, pelo menos eu acho que era ácido. Para os médicos era algo pior. As câmeras de segurança da rua filmaram o ataque. Eu espero que a polícia ache ele e faça justiça. É só isso que eu peço. Quero que algo seja feito porque ele pode fazer mal a outros, assim como fez pra mim.

Eu tenho muito ódio dele. Eu tenho ódio de mim. Olha o que eu me transformei hoje. Por baixo dessas faixas todas eu pareço um monstro, e por quê? Porque eu ousei ser quem eu sou. Até quando vai ser assim? Quer saber? No fundo, eu preferia estar morto.

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