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Eu tenho medo

Eu tenho medo

Eu tenho muito medo. Eu tenho medo de tudo. Eu tenho medo de altura. Eu tenho medo de anfíbios. Eu tenho medo de insetos. Eu tenho medo do futuro. Mas de todos os meus medos, o meu maior medo é o medo de mim próprio. Tenho medo de esquecer. E por mais que eu tente lembrar. Eu continuo esquecendo. E mesmo medicado, eu continuo esquecendo. Eu esqueço.

Eu não sei se vou continuar esquecendo. Espero não esquecer mais. A cabeça dói. Todos os dias dói. Não há regras ou padrões. Dói. Eu já sei que não sou mais o mesmo. Tudo mudou. Eu não consigo mais ser o mesmo. Eu fiz muitos exames. Hoje eu já sei o que eu tenho. Hoje eu escrevo sabendo o que eu tenho.

Eu nunca me imaginei doente. Eu nunca me vi tão doente. Confesso, eu tinha preconceito com alguém doente. Hoje eu estou doente. Eu tento estar normal. Para todos eu tento estar normal. Eu finjo estar normal. Confesso, nem sempre dá certo. Quase nunca dá certo. Tá, nunca dá certo. As pessoas sabem que eu não estou normal.

Não tem sido fácil. Eu descobri um medo que eu jamais imaginei ter. Eu descobri ter medo do amanhã. Eu descobri ter medo do hoje. Por quê? Porque eu não sei o amanhã. Eu também não sei o hoje. Pode ser que nada aconteça. Mas pode ser que piore. E se a minha cabeça doer? E se eu enlouquecer? E se eu enlouquecer? Eu tenho medo de enlouquecer.
Eu que sempre julguei, estaria pagando pela minha prepotência? Eu que sempre quis ser o melhor, estarei fadado ao fracasso? Eu que sempre vislumbrei o futuro, estaria comprometido para sempre? Pois é, eu tenho medo.

Eu busco aceitar os meus medos. Porque sei que eles já me aceitaram. Mas o medo corrói. Corrói de uma forma inimaginável. O medo vira a certeza do avesso e transforma em insegurança. O medo me mostra que o tempo, só o tempo é meu amigo. Ao tempo eu devo todas coisas, porque ele me deu e ele está levando de volta. O tempo é meu amigo. Amigo amargo, daqueles que chegam, conquistam a confiança e depois vão. Vão sem se deixar olhar para trás, como se não houvesse amanhã.

Eu tenho medo de não ter tempo. Eu tenho medo de ter perdido o tempo. Eu tenho medo de que o tempo não me permita mais lembrar. Lembrar das coisas doces e boas que eu vivi. Lembrar das experiências que me trouxeram até aqui. Lembrar dos amigos que um dia me abraçaram. E até daqueles que me viraram às costas. Lembrar da minha mãe que não teve medo. Ela não teve medo. Se ela tivesse tido medo eu não estaria aqui. Ela também tenta não deixar eu ter medo. Mas eu tenho medo. Eu tenho medo de não lembrar. Gi, Diene, mamãe, eu tenho medo.

A vida tem lá suas ironias. A vida não avisa ou dá prazo. A vida não revela quanto tempo. O tempo é meu amigo. Amigo amargo. Eu tenho medo de não ter mais tempo para lembrar. E se eu não lembrar? Só o tempo dirá. De tudo que a vida, o tempo e o medo são capazes de proporcionar, descobrir-se, medir-se e aproveitar o instante intenso são impagáveis.

Eu me descobri com medo de esquecer. Eu me descobri com medo de esquecer e não lembrar mais. E se um dia eu esquecer tanto que não lembrar nem que escrevi esse texto. O eu que terá ido embora, estará feliz por ter sido completo enquanto ainda eu ainda lembrava o quão longe cheguei.

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