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Eu venci

Eu venci

Eu trabalho, ainda hoje, o sentimento de culpa. A terapia têm me ajudado e muito nisso, mas eu me culpo por ter permitido que as coisas chegassem ao ponto em que chegaram. Eu me culpo por não ter percebido, desde o começo, mesmo com várias pessoas me alertando, ao que e a quem eu estava me submetendo.

Violência psicológica e física marcaram os três últimos anos da minha vida. Me vi consumida por uma força da qual eu já não tinha mais controle. As coisas ficaram cada vez mais “naturais”. Ser manipulada é ter seus olhos vendados.

Tudo era muito lindo no começo. Flores, promessas e mensagens carinhosas. As brigas começaram, o que é normal em todo o relacionamento. Anormal mesmo é quando a pessoa faz com que você se sinta culpada por essas brigas e te manipula de tal forma que, mesmo sem motivo, você se sente na obrigação de se desculpar, só pra deixar as coisas “melhores”. Anormal mesmo é ter que engolir todos os seus sentimentos e tudo o que você queria dizer por medo. E engolir tudo isso por anos trouxe consequências que, talvez, eu nunca mais consiga lidar ou curar.

Em 2014 os indícios de depressão começaram a aparecer. No começo, recebi todo o apoio do meu companheiro, que jurou estar ao meu lado pro que viesse. Tinha, constantemente, crises após discussões e precisava ser encaminhada para o hospital. Em 2015, fui diagnosticada com depressão, síndrome do pânico e ansiedade. Nesse mesmo ano, após uma discussão, onde, mais uma vez, fui colocada contra a parede e tida como a culpada pelo relacionamento não ser bom o bastante, quase tive uma parada cardíaca e, por muito pouco, fui dessa pra outra. Em 2016, recebi o ultimato: ou você se trata, ou termino esse relacionamento. Ele dizia que não podia parar a vida dele por causa dos problemas que tinha na época, que minha doença era um problema dos meus pais e que ele não tinha nada a ver com isso. Mas acontece que os problemas começaram desde que ele entrou na minha vida.

Durante esses anos, engoli tudo isso e mais um pouco e, pela segunda vez, escrevo sobre os três piores anos da minha vida. As cicatrizes ainda estão abertas. O medo ainda está aqui dentro em mim. Você sabe do que estou falando, não? Isso se chama relacionamento abusivo. Eu sabia o que era uma relacionamento abusivo, mas estava tão cega pela manipulação do meu ex-namorado que nem eu, uma universitária, jornalista e com acesso à informação, consegui perceber no que estava metida. E sabe o que é o mais engraçado? Sou feminista.

Uma feminista abusada fisicamente e psicologicamente que tinha todo tipo de informação em suas mãos e que, mesmo assim, foi uma vítima do machismo nosso de cada dia, vítima do cara com quem passei três anos da minha vida e que achava que conhecia e poderia confiar.

Numa das primeiras vezes que dormimos juntos fora de casa, fui violentada. Estávamos na casa de um amigo dele. Transamos e, como na época usava Fluoxetina, um antidepressivo, me cansava muito rápido e, na maioria das vezes, sequer tinha vontade. Virei para o lado e dormi. Estava cansada e grogue por causa do efeito do remédio. De madrugada, senti algo roçando em mim. Achei que não era nada e tentei dormir novamente. Continuei sentindo, acordei e então ele penetrou em mim. Pedi para que ele parasse e ele insistiu. Ele parou alguns segundos após eu erguer o tom de voz e ser ríspida. Ele virou para o lado e ficou emburrado. A culpada? eu, claro, por não querer dar pra ele quando ele queria e tinha vontade. Nesse dia me senti um lixo.

Em uma crise de pânico, ele me mandou sair do carro dele. Eu mal conseguia andar e tremia. Não, ele não me ajudou a descer. Só me esperou sair e arrancou. Nem um “você está melhor?” ouvi. Eu nunca ouvi um “me desculpe por isso”, “eu errei” ou “preciso rever minhas atitudes”, mas eu era constantemente forçada a dizer esse tipo de coisa pra manter a “paz” no relacionamento. Eu sempre estava errada.

Ele ficava emburrado quando usava minhas Melissas. Ele odiava Melissa. Um dia, incomodado com uma, deu meia volta com o carro e me trouxe pra casa. Arrependido, ele justificou a atitude dizendo que se “importava com o que os outros pensariam de mim”. Bom, o que as pessoas pensariam de uma mulher usando uma Melissa amarela? Eu comprava roupas pensando se ele gostaria ou não, porque se ele não gostasse, ele fazia questão de me humilhar e de dizer o quão “ridícula”, “brega” e “escrota” eu estava naquela roupa. Mas claro, ele dizia essas coisas porque queria me proteger. “Se você pintar o cabelo de loiro de novo, eu te largo e falo sério”. “Se você engordar, não tem como ficarmos mais juntos, porque não foi desse jeito que te conheci”. Essa última frase ouvi muito e chamo atenção para ela, especialmente, porque ele era gordo. Ele dizia que eu nunca acharia alguém tão bom e paciente como ele. O tempo passou e eu passei a acreditar em tudo isso. Eu passei a acreditar que nunca seria boa o bastante pra ninguém, que eu era um desastre ambulante.

No meio da rua, ele gritou comigo e apertou meu braço. Tudo isso porque não conseguiu a mesa que queria numa cafeteria. A culpa? Minha porque atendi a ligação do meu pai, porque eu não deveria ter me afastado para atender o telefone naquela hora. Nunca me senti tão envergonhada. As pessoas passavam e olhavam pra mim enquanto ele falava enfurecido, enquanto apertava meu braço. Nesse dia eu senti medo. Mas claro, ele sabia jogar, ele sabia o que falar e quando falar. Me senti, mais uma vez, culpada pela situação. Ele terminou comigo naquele dia e alegou que eu havia mudado, que eu não era mais a mesma (deve ser difícil mesmo pra um cara aceitar que temos voz, opinião própria e que amadurecemos né?). Ficamos sem nos falar por pouco mais de duas semanas e então resolvi enviar uma carta de três páginas frente e verso. Na carta eu dizia o quanto o amava, o quanto precisava dele e como ele tinha sido bom pra mim em todos esses anos de namoro. Disse também que eu precisava mudar mesmo, que precisava rever minhas atitudes. Eu me esforcei, mas ele não, pra variar. Dias depois ele me mandou mensagem e pediu para que conversássemos na casa dele.

Reatamos mas, desde então, as coisas nunca mais foram as mesmas. As coisas esfriaram. Estava no último ano da faculdade e minhas atenções se voltaram totalmente ao TCC. Ele não entendia isso. Ficamos quase um mês sem nos ver porque meu foco, naquele momento, era outro. Não sentia mais falta dele, saíamos de vez em quando e quando saíamos, era um fardo pra mim olhar para ele, ouvir a voz dele e ser tocada e beijada por ele. Eu tinha nojo.

Certo dia, uma veterana da faculdade foi convidada por um professor da minha turma para falar sobre seu livro, que, coincidentemente, era sobre relacionamentos abusivos. Ela contou brevemente alguns dos relatos de suas entrevistadas e eu pensava “essa sou eu”. Eu me vi em, pelo menos, três relatos desse livro. Eu sou eternamente grata a essa menina por ter aparecido no momento certo, eu agradeço ela por ter dito o que eu precisava ouvir. Os relatos que ela expôs me fizeram sair da sala, naquele dia, pensativa. Duas semanas depois dessa experiência, tomei minha decisão. Marquei com o meu então namorado e fui decidida a fazer o que precisava ter sido feito há muito tempo. Eu terminei.

Sete meses se passaram depois da minha decisão, da melhor decisão que eu poderia ter tomado. Sete meses se passaram depois que me vi liberta desse inferno em que estive presa, desse mar de dor, sofrimento e violência. Eu sofri. Eu fui humilhada, manipulada. Três meses após o término, decidi expor minha história em uma rede social e fiquei impressionada com a quantidade de meninas que se manifestaram no meu post e por mensagem sobre as experiências delas em seus relacionamentos abusivos. Meninas estupradas por parentes e namorados. Meninas que sofreram violência psicológica, que eram manipuladas e que, por muitos anos, assim como eu, se sentiram culpadas de alguma forma. Meninas que reconheceram que estavam em um relacionamento abusivo e que me agradeceram por ter ajudado elas a enxergarem isso.

Eu me expus, e muito. Estou me expondo, mais uma vez e mais ainda, nesse texto. Eu não tenho vergonha de compartilhar o que sofri, assim como não quero que ninguém tenha pena de mim, como aconteceu anteriormente. Eu quero que você, homem que lê isso, reveja suas atitudes com sua esposa, namorada, ficante e com as mulheres que te rodeiam. Eu quero que você se ponha no meu lugar, eu quero que você chame a atenção daquele seu amigo escroto que acha legal fazer certas coisas com as meninas. Eu quero que você que sabe que sua vizinha, prima é estuprada e vítima de violência, denuncie. Eu quero que você pare e pense em todas as suas atitudes e em como você pode ajudar uma mulher, uma vítima. Eu quero que você, mulher, você que é vítima, veja que é possível se levantar dessa sujeira e dessa dor toda e dar um basta nisso. Não é fácil reconhecer o que passamos, eu sei que não é, mas é preciso. A gente precisa se permitir ser feliz e estar de bem com nós mesmas. A gente precisa de respeito e de justiça.

Eu tive medo. Autoestima, confiança em mim mesma e em outras pessoas foram prejudicadas. Mas posso dizer, sem sombra de dúvidas, o quanto me amo hoje. Amo tanto que já não me permito mais entrar em algo que sei que é e será tóxico. Me amo tanto que algumas pessoas podem achar que é arrogância, ou algo do tipo. Estou me descobrindo cada vez mais, estou conhecendo coisas, lugares e pessoas novas. Me sinto cada vez mais independente e feliz. Nada disso, nada dessa felicidade e dessa satisfação seria possível se ainda estivesse engatada naquela desgraça toda. Posso afirmar agora, em alto e bom som, que estou vivendo finalmente a minha vida.

Se por um lado esse relacionamento me destroçou em alguns sentidos, por outro me tornou a mulher que sou agora. Me amadureceu de uma forma que todos que conheciam aquela outra Dayane de três anos atrás, ficam impressionados. A vida me cobrou isso, eu precisei levantar e me construir de novo. Eu precisei tocar a minha vida. Agora veja, estou falando sobre coisas que nunca pensei que falaria tão abertamente. Eu estou falando com você, mulher.

Se levante, se permita. Se coloque em primeiro lugar e não se esqueça, você não está sozinha, você tem um exército de mulheres ao seu lado, dispostas a te ajudar. Sua dor é nossa dor! Eu demorei pra encontrar a luz. Não deixe chegar longe demais, não deixe a dor desse relacionamento te puxar mais um pouco pro buraco, ainda dá tempo. Não permita que ninguém, além de você mesma, diga o que você pode ou não fazer, o que pode ou não usar. Não deixe ninguém tomar o controle da sua vida. Levanta, mulher. Grita, conte pro mundo suas dores e exorcize seus demônios. Se liberte e, principalmente, se ame.

Da redação: *Se você está em uma relação tóxica, ou conhece alguém que esteja, denuncie. Não se cale.
Em Curitiba você pode procurar a Delegacia da Mulher, ou ligar no 180 (Central de Atendimento à Mulher) a ligação é gratuita e funciona 24 horas por dia.

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