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Funk é cultura, sim

Funk é cultura, sim

O funk pode ser entendido como movimento cultural, que além de gênero musical, envolve um contexto social: as favelas e bailes funk. Ainda existe quem diga que este gênero não é música, muito menos cultura, esquecendo do fato de que cultura é o que caracteriza as experiências das pessoas baseada na condição social, nível econômico e história pessoal. O autor Douglas Kellner, afirma em seu livro “A Cultura da Mídia” que o conceito de cultura pode ser definida como “uma forma de atividade que implica alto grau de participação, na qual as pessoas criam sociedades e identidades”.

Mas, dessa vez, esqueça aquele proibidão, pois o funk tem uma outra vertente: o funk-pop. O fato é que ele abriu portas para muitas cantoras, desde Tati Quebra Barraco até Anitta. Não só o pop bebe do funk, as letras das músicas sertanejas mais famosas também sofrem influência desse gênero subestimado.

As músicas fizeram uma mutação para se adequar a todo o tipo de público, as funkeiras começaram a usar mais brilho e ganharam clipes superproduzidos, inspirados nas divas lá de fora. Anitta, apesar de ser um sucesso nacional, diz que sua inspiração vem da cantora Rihanna. Na verdade, a mudança no figurino e nas letras é uma adequação ao mercado. Mesmo começando no funk, Valesca Popozuda e Ludmilla só vieram estourar mesmo quando trouxeram a “música da favela” para o asfalto. Talvez esse tenha sido o pontapé inicial para colocar o funk em outra posição.

São as cantoras que começam no funk e continuam por aí. Tati Quebra Barraco é uma dessas exceções. Com mais de 15 anos de carreira, Tati estourou no Brasil em 2004, com seu segundo CD, o que também a levou gravar seu primeiro DVD, que recebeu disco de ouro pelas 25 mil cópias vendidas. Tatiana dos Santos Lourenço cresceu na periferia do Rio de Janeiro. Em 2015, chegou a comandar o reality “Lucky Ladies”, do canal por assinatura FOX Life, em que ela treinava as participantes para um grande show. O show revelou uma das grandes apostas do funk atual: MC Carol, que não tem papas na língua.

Outros ainda criticam o gênero carioca porque é polêmico: fala sobre sexo e classes sociais mais baixas. Uma das maiores críticas em cima deste gênero musical é que alguns são acusados por tratar a mulher como objeto. Mesmo com o funk-pop, a narrativa da objetificação ainda está bem presente. Porém, para a autora Kate Lyra, as “mulheres mais jovens, ao assumirem sua sexualidade – de maneira até exagerada, às vezes -, não estão pedindo para serem objetificadas, mas estão avançando, afirmando o direito à sua própria feminilidade”.

A música também tem como características a união das tribos, o que também contribui indiretamente para um preconceito musical. Muitas vezes, por ser apresentado por pessoas mais pobres, o funk foge do que a elite considera como “música de qualidade”. Já no asfalto, a música brasileira consegue se misturar a qualquer gênero e dar seu toque final. Com novos aplicativos e plataformas de streaming, tornou-se comum que as pessoas consigam postar suas próprias produções, deixando um mar de opções para os internautas, possibilitando o conhecimento de novos ritmos e gêneros, ou até mesmo a junção deles.

O programa Esquenta, que era apresentado por Regina Casé, reunia no palco cantores de sertanejo, funk e samba, por exemplo, o que garantia o maior alcance do público e promovia a quebra de esteriótipos. Nenhum estilo musical determina o comportamento de alguém. Porém, infelizmente, a diversão e cultura dos jovens da periferia sempre é taxada como desordem e bagunça. Não diretamente, o funk-pop tenta começar a dar mais espaço ao funk de raiz, seja nas rádios ou televisão. No fundo, a gente sabe que o preconceito contra o funk é só mais uma faceta da criminalização da pobreza.

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