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I, Tonya – um filme sobre os não-queridinhos

I, Tonya – um filme sobre os não-queridinhos

    Filmes com altos orçamentos requerem um elenco afiado e com atuações brilhantes, certo? Certo. Como uma cinebiografia “Eu, Tonya” (I, Tonya) entrega ao público doses de documentário em uma trama envolvente.

    Cinebiografias causam aquela sensação de temor. A vida de famosos ganham cenas cafonas ou um roteiro sem graça como se estivéssemos assistindo a uma peça de teatro ou lendo um livro ilustrado. Mas a história da patinadora artística, Tonya Harding, contada nas telonas, quebra uma das premissas da cinebiografia: ela não é nenhuma personalidade queridinha da América. Foda-se, Tonya mostra o quão visceral pode ser a trajetória de uma competidora e isso faz valer a pena cada segundo do filme.

    ‘I, Tonya’, no entanto, não é muito diferente das receitas de sucessos hollywoodianos. De origem pobre, a menina que tem o sonho (nutrido pela mãe) de ser uma grande patinadora, vence a infância humilde, supera as dificuldades e consegue chegar lá. Mas o diretor Craig Gillespie narra – por meio do roteiro exemplar de Steven Rogers – uma história repleta de conflitos, o que é intrigante e nos prende às verdades da personagem principal. Por falar em conflitos e tragicomédias, o diretor sabe muito bem como fazer, vide o exemplo de seu outro ótimo longa, “A Garota Ideal (Lars and the real girl, 2007).

    Mas por que falar de conflitos familiares? Por que ‘I, Tonya’ é mais que um filme sobre a melhor patinadora dos Estados Unidos, a primeira a realizar o salto Axel Triplo e que participou de um ataque à sua concorrente na disputa de sua segunda olimpíada. É sobre o quanto estamos vulneráveis a situações de abuso, submissão, violência e transtornos psicológicos.

    Harding tem uma mãe que poderia muito bem ser a de qualquer um de nós, aquela que alimenta de forma doentia e com frieza um desejo de fazer com que seu filho alcance o topo da montanha, doa a quem doer. E quando se pensar em encontrar o amor de nossas vidas como um escape de uma vida tóxica, ver tudo ruir pelo machismo do marido, Jeff Gilloly (Sebastian Stan) que tem crises de ciúmes, é assediador e violento.

    Vamos a mais alguns destaques do longa-metragem. Tem uma ótima montagem e edição. Seu diferencial está na quebra da quarta parede, por isso não se surpreenda caso, no meio de uma cena de briga, algum personagem pare tudo para conversar com você. A trilha sonora também cumpre o papel de uma perfeita ambientação aos anos 90, complementada pelos figurinos e caracterização. E aqui chegamos ao primor do filme: Margot Robie (Tonya Harding) tem a sua melhor atuação no cinema, difícil de ser superada, o que não surpreende sua indicação ao Oscar 2018 de melhor atriz.

    Por falar em indicações, ao final do filme você irá concordar que Allison Janney (LaVona Golden), certamente levará a estatueta de melhor atriz coadjuvante na próxima edição do Oscar, ela está simplesmente impecável na interpretação a ácida mãe de Tonya.

    Um filme sobre as escolhas da vida e os limites que precisamos enfrentar por nossos objetivos, ganha atributos conflituosos e cumpre a missão de não apenas entreter, mas causar reflexão. Não se engane pelo tom de comédia – que muitas vezes é exagerado -, ‘I, Tonya’ tem muito a dizer em voz alta e no ritmo das pistas de gelo: veloz e avassalador.

    Eu, Tonya estreia nos cinemas neste dia 15.

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