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Moda e identidade de gênero: nem deles, nem delas

Moda e identidade de gênero: nem deles, nem delas

Assim como na literatura, no cinema e outras artes, a moda segue os contextos sociais de cada tempo. Na década de 1930, após a crise de 29, a moda para as mulheres era luxuosa devido ao fim da tal crise. A simplicidade veio à tona na segunda guerra mundial com a ida das mulheres ao mercado de trabalho. Mais para frente, nos anos 60, as brigas entre EUA e URSS separaram jovens e adultos e os adolescentes, que se inspiravam no lema paz e amor para fazer revolução. Os então hippies, como eram chamados, eram donos de um estilo com peças livres e cheias de cores que dominaram passarelas de grifes como Yves Saint Laurent, na época. E por assim seguimos ao longo de toda história até hoje.

Os movimentos sociais são o que conduzem a atualidade. Seja pelo impeachment ou permanência de Dilma, a população sai às ruas. Pedindo por condições de trabalho melhores e para que suas escolas não sejam fechadas, alunos e professores se manifestam. Seja para pedir a legalização da maconha, para pedir respeito por sua sexualidade, para pedir que parem com a tortura de animais e até mesmo por Jesus, as pessoas saem às ruas. Mas talvez nenhum destes movimentos englobe tantas lutas e protestos dentro de si como o feminismo.

Só em 2015, no Brasil, feministas protestaram contra abuso sexual em transportes públicos, contra a propaganda de uma cerveja que incentivava o abuso às mulheres no carnaval, contra o PL 5069/13 que determinava que mulheres vítimas de estupro passassem por corpo de delito e proibiria a pílula do dia seguinte. Há ainda a Marcha das Vadias que luta pela legalização do aborto, pelo fim de qualquer tipo de violência contra a mulher, para mulher ter direito de seu próprio corpo, pela igualdade de gênero. E é aí que quero chegar.

Igualdade de gênero, em seu sentido sólido significa homens e mulheres com os mesmos direitos, ou seja, a base do feminismo. A luta pela igualdade de gênero proporcionou o direito ao voto das mulheres, o acesso à educação que logo nos leva ao acesso ao mercado de trabalho (que ainda paga 70% a mais aos homens pelo mesmo trabalho feito por mulheres). Há ainda alguns pontos bem básicos pelos quais a igualdade de gênero luta contra, como azul não é cor de menino, rosa não é cor de menina. Carro não é brinquedo de homem, boneca não é brinquedo de mulher e, por fim, roupa também não é nem dele, nem dela.

Foto: Gucci, Armani e Chanel
Foto: Gucci, Armani e Chanel

É seguindo a igualdade de gênero que a moda finalmente se deu conta disso. E não estamos falando de adaptações do masculino para feminino, como no caso de itens como sapato Oxford. Estamos falando de vestir o item que você quiser, seja lá qual seu sexo. Estamos falando de roupas iguais sendo confeccionadas tanto em tamanhos masculinos quanto femininos. Estamos falando do fim da separação de setor masculino e setor feminino.

No ramo da alta costura, a marca Rad Hourani, em 2013, foi a primeira a criar uma coleção denominada unissex. Ano passado, tivemos a coleção de Alessandro Michele da Gucci, em que mulheres passaram desfilando de ternos, homens de tailleurs e camisas de renda e praticamente todos os modelos tinham um laço em sua composição, sem contar a androginia presente em cada modelo. A coleção de primavera/verão da Emporio Armani colocou suas modelos em ternos masculinos e adaptou as bermudas para elas. Para eles, nada saiu muito do comum da Armani. A Chanel apostou em uma noiva genderless, que desfilou de terno e cauda tule em sua coleção de inverno 2016. Até mesmo a brasileira produtora dos famosos sapatos de plástico, a Melissa, criou em sua última coleção, Dance Machine, sapatos com numerações que vão até o 44. Recentemente, não teve quem não ouviu falar sobre a Louis Vuitton ter confirmado Jaden Smith como seu modelo oficial da nova coleção feminina. O ator de 17 anos já havia mostrado seu lado nesta luta ao usar um vestido e alegar que “não são roupas de menina, são roupas”. As marcas procuram também ir além da roupa. A Tom Ford, por exemplo, já lançou linha de maquiagens para homens. Marc Jacobs, para lançar a sua linha de maquiagens para Sephora, não pensou duas vezes e se maquiou todo para as fotos de divulgação. Calvin Klein já lançou perfume sem gênero.

Parece pouco ou até mesmo bobagem, mas roupa e identidade de gênero já foram tema da pesquisa das estudantes Ivana Guilherme Símili e Renata Franqui, em seu artigo “As roupas e os gêneros: as estampas de brinquedos e de brincadeiras”. Após analisarem a coleção da marca infantil Zig-Zig-Zaa, as autoras afirmam que “os brinquedos e as brincadeiras apresentadas pelas roupas contribuem para a produção e reprodução de imagens e de representações que constituem as meninas como relacionadas ao cor-de-rosa e os meninos, ao azul”. Elas concluem que o gênero em sociedade depende de diversos fatores e a roupa é sem dúvida um destes fatores.

Foto: Marc Jacobs para Sephora - The Beauty Authority
Foto: Marc Jacobs para Sephora – The Beauty Authority

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