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Com o tecido mais firme da indústria, Think Blue faz desfile-protesto de resistência a Bolsonaro

Com o tecido mais firme da indústria, Think Blue faz desfile-protesto de resistência a Bolsonaro

Ao longo de setembro, as eleições tiravam o sono de Mirella Rodrigues, fundadora da marca de upcycling Think Blue. Enquanto a designer criava roupas, cortava tecidos e garimpava peças jeans para reaproveitar em suas criações que seriam apresentadas em um desfile na segunda edição do Brasil Eco Fashion Week, algo a inquietava muito: os discursos de ódio do candidato do PSL.

Desde julho a carioca já sabia que gostaria de exibir um desfile-protesto com viés feminista. Foram quatro meses pesquisando sobre mulheres que ao longo da história lutaram contra o machismo, pelo direito ao voto, ao aborto, a pílula anticoncepcional e a libertação sexual. Até que Mirella se deu conta que o cenário de luta da França de 1968 que ela estudava era muito semelhante ao Brasil de 2018 que ela vivia- afinal, em 26 estados do nosso país e no DF, mulheres foram para rua manifestar contra Bolsonaro.

Eis que os dois temas que perambulavam a cabeça de Mirella casaram: protestos feministas ao longo da história e a repulsa pelo discurso carregado de preconceito de um candidato à presidência. A cerimônia foi no dia 17/11, quando as modelos que desfilavam as roupas da Think Blue nas passarelas do BEFW carregaram cartazes com frases de Jair que são homofóbicas, racistas, machistas e ofendem desde indígenas a quilombolas.

“Eu senti que era necessário que alguém falasse, que alguém cutucasse essa ferida novamente. A gente não pode esquecer quem foi eleito, qual o pensamento que essa pessoa propõe para seus seguidores. Isso faz parte da democracia, a gente se posicionar, debater e refletir o que está acontecendo”, explica a designer sobre suas criações e os cartazes que causaram burburinho nas redes sociais nos últimos dias. E por falar em burburinhos…

A reação da ação

Não demorou muito para que as fotos das modelos com os cartazes viralizassem nas redes sociais. Como toda ação tem uma reação e as mídias digitais permitem a interação dos receptores por meio de comentários, a resposta ao desfile-manifesto foi imediata. Uma breve passada na página do Facebook ou Instagram da marca e você encontra comentários dizendo:

“Vai ter boicote, fiquem certos disso”.
“Bando de baderneiros! Tem que procurar trabalho e não roubar’.
“ThinkBlueNÃO”.
“Política não se mistura com moda. Erraram feio”.
“Quem lacra, não lucra”.

“Se essas frases causam tanto alvoroço, porque essa pessoa foi eleita? Se você dá poder para uma pessoa que fala coisas que você não concorda, então porque você está dando poder para ela? É muito incoerente”, esclarece Mirella em relação a esses comentários de ataque ao posicionamento da marca. “A gente não criou nenhuma frase, a gente não falou nenhuma mentira”, defende-se a designer.

Em contrapartida, Mirella, que também gerencia as redes sociais da Think Blue, revela que as reações positivas ao desfile estão sendo mil vezes maiores que as negativas. Além de receber uma onda de mensagens do bem que ela ainda está tentando responder, em menos de uma semana a marca já ganhou 7 mil novos seguidores e já vendeu praticamente todas as peças de roupa do site.

Mirella ao centro com algumas modelos que participaram do desfile

O voto secreto da moda

Ao longo da história a moda se posicionou politicamente em vários casos. Como próprio pesquisador e publicitário Márlon Calza coloca, a moda pode ser considerada uma reflexão a maneira como os sujeitos reagem aos acontecimentos, como encaram as mudanças, transmitindo seus valores, princípios e ideias. “A moda participa de movimentos políticos, feministas e ambientais desde sempre. A moda sempre esteve envolvida em movimentos revolucionários em toda sua história”, reforça Mirella, completamente inspirada por esse passado militante da área.

O primeiro desfile político da história do Brasil foi contra a repressão da ditadura militar, em 1971. A estilista Zuzu Angel vestiu suas modelos com manchas vermelhas nas roupas, representando sangue, pássaros na gaiola, representando a falta de liberdade e tanques de guerra, remetendo aos militares. Tudo para protestar contra o modelo de governo que na época foi responsável pelo desaparecimento de milhares de pessoas, incluindo seu filho, Stuart Angel Jones.

Detalhes das peças de roupas apresentadas por Zulu Angel em seu desfile-manifesto em 1971

Zuzu morreu em um acidente de carro em 1976, no Rio de Janeiro. Antes de morrer, deixou um bilhete para Chico Buarque que dizia “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Hoje, a estrada em que morreu leva seu nome.

Depois de Zuzu, tivemos casos como da marca Vide Bula, com peças que estampavam o ex Presidente dos EUA, George W. Bush, com nariz de palhaço. A nível internacional, durante a eleição que elegeu Trump, estilistas como Tom Ford, Marc Jacobs, Christian Siriano, Sophie Theallet, Humberto Leon, Philip Lim, Derek Lam se NEGARAM a vestir a primeira dama, pelo posicionamento político deles irem contra os ideiais do marido de Melania Trump, conhecido também por um discurso carregado de preconceitos.

Mas e na moda brasileira, quem mais fez barulho além da Think Blue? Apenas outro estilista, Célio Dias, usou seu espaço em desfiles para passar uma mensagem política. Foi durante o SPFW que ele entrou com uma camiseta escrita ‘Ele Não’ enquanto segurava uma bandeira do arco-íris, símbolo da luta LGBTQ+. E também a marca Peita, conhecida pelas camisetas Lute Como Uma Garota, que se manifestaram criando a camiseta ‘Ele Não’.

“No Brasil as pessoas têm uma certa resistência em se posicionar porque pensam: “Vamos perder seguidores” “Vamos deixar de vender” e não é assim. A gente tem um poder de atingir um certo público, uma massa. Eu tinha ali um poder de fala e passar mensagem, eu não podia usar aquilo só a meu favor como marca e designer, seria até egoísmo da minha parte. Eu tinha que refletir o momento que o país está passando”, esclarece Mirella.

Resistência is the new black

Resistente é a palavra que Mirella usa para descrever o jeans, matéria prima principal da sua marca que trabalha com a técnica de upcycling, que se trata de reaproveitar peças jeans dando um novo propósito ao que provavelmente seria descartado nos lixões e agrediria a natureza. Não é à toa que a marca estava em uma semana de moda Ecológica.

Mas ali o jeans tinha mais do que um significado sustentável. Ele era também uma armadura de defesa. “O jeans é um dos tecidos mais resistentes que existem na cadeia têxtil, assim como nós mulheres na sociedade. Ele é um símbolo de luta”, explica Mirella sobre o tecido que já passou por diversas manifestações, como nos anos 70, em que fez parte do movimento dos jovens revolucionários.

As minorias eram a grande maioria

Mesmo nosso país tendo uma uma forte herança africana, o mercado de moda brasileiro ainda se prende muito aos padrões de beleza europeus. Foi preciso que a semana de moda mais importante do Brasil (SPFW) estabelecesse uma cota de 10% de modelos negras em desfiles, já que as marcas participantes não as colocavam em suas passarelas para representar suas roupas. Mas novamente Mirella nadou contra a maré com a Think Blue.

Das 13 modelos participantes, 6 delas eram negras. E novamente a designer usou a visibilidade da passarela para uma causa maior. “Eu trabalho com gays, com mulheres, com pessoas negras e usei aquele espaço para para representar todas as pessoas que me ajudam a manter minha marca. E nesse exato momento do país, eles são considerados minorias e o atual presidente não vai olhar para elas como ele já mesmo falou. Essa luta pela diversidade está no nosso cotidiano todos os dias e essas pessoas não vão se curvar para ele [Bolsonaro]. Eu representei ali a luta e o trabalho delas”, finaliza Mirella.

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