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Uma alma que ainda sonha ser livre

Uma alma que ainda sonha ser livre

Estou há quase três meses sem escrever. Por um momento, achei que fosse pela falta de tempo, mas a verdade é que estou com bloqueio criativo. Para você ter uma noção, reescrevi esse texto, por pelo menos sete vezes. [ Escrevi, apaguei, escrevi, apaguei…].

Essa repetição de situações é o que mais assombra os meus dias. É estranho, porque sou o tipo de pessoa que acorda na madrugada com alguma ideia e quando vejo, estou grudada no computador escrevendo às três da manhã. Já troquei várias noites de sono para terminar um texto, do qual normalmente não lembro quando comecei.

E foi assim, na calada da noite, sem alardes e obviamente sem sono, a minha inspiração voltou. Há algum tempo queria falar sobre viajar, a sensação de liberdade e a ansiedade. E sempre que penso em ser livre, gaivota é a principal coisa que vem a mente.

Quando eu tinha oito anos, uma professora pediu para que escolhêssemos um livro na biblioteca da escola como uma atividade avaliativa. Andei por aqueles corredores escuros e infinitos, olhei para cada prateleira e título dos livros, havia capas coloridas e histórias para todos os tipos de gostos. Era um paraíso.

A bibliotecária me fitava com seus olhos, tentando acelerar a minha escolha. Eu, indecisa do jeito que sou, escolhi dois títulos e jurei que leria sem desistir (algo que fazia com frequência). Lembro até hoje da capa e principalmente de cada detalhe de uma das histórias. O livro trazia o desenho de uma gaivota e contava a história de Fernão Capela, um pequeno pássaro que não aceitava a sua natureza. Ele odiava a ideia de viver a sua vida em busca de comida, para ele as asas significam poder voar, ser livre e conhecer o mundo. Mais tarde descobri que esse livro era uma fábula de autoajuda.

No começo desse ano até as férias de inverno, estava um pouco desanimada com tudo a minha volta. Eu repeti várias vezes na minha cabeça que a minha semana melhoraria, e por causa disso me afastei dos amigos e me isolei do mundo, querendo apenas ficar na minha.

Em um sábado, nas férias de julho, eu acordei disposta a encarar os amigos e a vida. De última hora decidi colocar a mochila nas costas e seguir sem rumo em um acampamento que um amigo havia organizado. Eu não conhecia nenhum dos amigos dele, exceto por ele e pelo lugar para onde estávamos indo.

Já havia feito aquele acampamento pelo menos quatro vezes e até já havia decorado o caminho. No dia em questão, coloquei na minha cabeça que nada de novo aconteceria. Apareci de surpresa às 5 horas da manhã no local de encontro indicado por eles. Embarquei naquela viagem na loucura, mas naquele dia me senti livre, esqueci dos problemas e o que efetivamente, havia me deixado afastada de todos por tanto tempo.

Pode parecer estranho que uma viagem tão simples tenha marcado o meu ano. O fato de ter decidido não ficar na cama esperando a vida passar já foi uma conquista. Eu sempre fui uma pessoa que sofre de ansiedade, algo que segundo a OMS atinge hoje 23,9% da população brasileira e em sua maioria mulheres, mas nos últimos meses a ansiedade tem roubado grandes momentos de minha vida. Esse texto, por exemplo, foi escrito em um período de ansiedade. Coloquei na minha cabeça que precisava escrever, cada vez que apagava uma frase ou um palavra, o meu desespero, questionamentos e pressões psicológicas começavam.

A frase “Preciso terminar esse texto” repetiu-se várias vezes e tentei aliviar a pressão que coloquei sobre eu mesma. Há dias que a pressão é tão grande, que a única coisa que desejo fazer é fugir, ou sair sem rumo para algum lugar longe, querendo viver cada momento de minha vida, sem problemas e sem obrigações.

Naquela viagem, fiz coisas que normalmente procurar evitar, conheci pessoas novas, me arrisquei mais e acima de tudo, me senti como uma Gaivota que descobre como é sair do ninho e conhecer a liberdade de voar pela primeira vez, querendo viver cada momento e lutando pelo direito de uma alma que ainda sonha ser livre.

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